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Ganhador do Nobel de Física diz que cortes de Trump 'paralisarão' pesquisas nos EUA
Passava de 2h da manhã quando John Clarke recebeu um telefonema de um número misterioso que anunciaria que ele havia sido laureado com o prêmio Nobel. O cientista pensou que, "obviamente, tratava-se de um trote", que ficou ainda mais surrealista quando ouviu "uma voz vinda da Suécia".
"Logo ficou claro que era real", disse Clarke aos jornalistas nesta terça-feira (7), depois de ganhar junto com outros dois colegas o Nobel de Física por seus trabalhos no campo da mecânica quântica.
"Estava sentado completamente atordoado [...]. Jamais pensei em toda a minha vida que algo assim pudesse acontecer", refletiu.
Este professor da Universidade de Berkeley, na Califórnia, contou que, desde então, seu telefone não parou de tocar. Muitos e-mails chegaram e as pessoas começaram a "bater na minha porta" buscando entrevistas às 3h da madrugada.
"Eu disse obrigado, mas não. Não a esta hora da noite", recordou o britânico, de 83 anos, com um sorriso.
Clarke compartilhou o cobiçado prêmio com o francês Michel Devoret e o americano John Martinis, dois colegas físicos que trabalhavam em seu laboratório de Berkeley durante a época da pesquisa nos anos 1980.
Os três cientistas são pesquisadores em universidades dos Estados Unidos.
O físico destacou os recursos significativos que teve a seu dispor no momento de seu trabalho há quatro décadas, como o espaço do laboratório, assistentes de pós-graduação e equipamentos.
E classificou os esforços do presidente Donald Trump para reformar a política científica e de saúde do país como um "problema imensamente grave", incluindo as demissões em massa de cientistas governamentais e cortes nos orçamentos de pesquisa.
"Isso paralisará grande parte da pesquisa científica nos Estados Unidos", disse ele à AFP, ao acrescentar que conhece pessoas que sofreram enormes cortes de financiamento.
"Será desastroso se isso continuar [...]. Supondo que a administração atual vai acabar, pode levar uma década para voltar para onde estávamos, digamos, há um semestre", acrescentou.
Ele também classificou essa situação como um "enorme problema" que está além de "qualquer compreensão".
- 'Ciência básica -
A ganhadora do Nobel Mary Brunkow, que na segunda-feira foi laureada na categoria de Medicina, disse algo similar aos jornalistas sobre a importância do financiamento público dos Estados Unidos à pesquisa científica.
Os premiados com o Nobel de Física deste ano realizaram seus experimentos na década de 1980. Suas pesquisas permitiram posteriormente aplicações reais do universo quântico.
A mecânica quântica estuda o comportamento da matéria e da energia em escalas extremamente pequenas.
Por exemplo, quando uma bola atinge uma parede, ela rebate e volta. Mas, em escala quântica, uma partícula pode atravessar diretamente uma parede. Este fenômeno é conhecido como "efeito túnel".
Clarke e seus companheiros demonstraram o efeito túnel em uma escala que o público pode compreender.
Como manifestou o Comitê Nobel, seu trabalho demonstrou que "as propriedades estranhas do universo quântico podem se tornar concretas em um sistema grande o suficiente para caber na mão".
Essa pesquisa tornou possíveis tecnologias como os telefones celulares e também foi fundamental na corrida para desenvolver computadores quânticos poderosos.
Clarke destacou nesta terça que é "vital" continuar financiando trabalhos que possam parecer "ciência básica", mas que resultam em "aplicações cruciais" mais adiante.
À época, "Michel, John e eu não tínhamos como compreender a importância" que esse trabalho teria, afirmou.
"É muito importante fazer essa ciência básica porque você não sabe qual será o resultado", concluiu.
O.Brown--AT