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Centenas de pessoas morreram na prisão e mais de 90 mil foram presas arbitrariamente sob o regime de exceção que sustenta a guerra contra os grupos criminosos em El Salvador, o que constituiria crimes contra a humanidade, denunciou nesta quarta-feira (15) a Anistia Internacional (AI).
O presidente Nayib Bukele, que buscará um terceiro mandato de seis anos nas eleições de fevereiro, governa com amplos poderes e sob um estado de exceção que permite desde 2022 prisões sem mandado judicial.
Segundo um relatório da AI, foram documentadas até dezembro sob esse regime "pelo menos 470 mortes em centros de detenção". "Em vários casos, foram registradas lesões incompatíveis com as causas oficiais de morte, ou indícios de violência física e negligência médica."
Segundo a ONG, a maioria dos mortos sequer havia sido condenada, e sua vida "dependia inteiramente do Estado". "Nenhuma dessas mortes levou a uma investigação efetiva" para identificar os responsáveis, ressaltou Ana Piquer, diretora regional da AI, ao apresentar o relatório.
"Há mães que passaram semanas percorrendo prisões sem saber onde estavam seus filhos, pessoas detidas sem saber o motivo, famílias que receberam o corpo de um ente querido sem uma explicação convincente sobre sua morte", descreveu Ana. O documento também aponta que mais de 90 mil pessoas foram presas arbitrariamente.
As prisões em massa, denúncias sistemáticas de tortura, os desaparecimentos forçados e as mortes sob custódia do Estado "não podem ser entendidas como incidentes isolados, e sim como parte de um padrão de abusos que, devido à sua escala e organização, poderiam constituir crimes contra a humanidade", enfatiza o relatório.
A denúncia se soma à de um grupo de juristas internacionais que, em março passado, acusou Bukele de violações graves dos direitos humanos, como a prática de tortura e desaparecimentos, que podem constituir crimes contra a humanidade.
A guerra de Bukele contra os grupos criminosos reduziu a violência a níveis historicamente baixos em El Salvador e tornou o presidente de direita um dos mais populares da América Latina. Mas sua estratégia, simbolizada por uma megaprisão, também é criticada, porque resultou na concentração de todos os poderes do Estado, o que lhe permitiu no ano passado instaurar a reeleição por tempo indeterminado.
H.Thompson--AT