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Iranianos que não irão ao funeral de Ali Khamenei
Temem pela própria segurança, não querem participar de cerimônias suntuosas com a economia em frangalhos ou simplesmente não se sentem representados. Vários iranianos explicam por que não vão comparecer ao funeral do falecido líder supremo Ali Khamenei.
Embora as autoridades esperem entre 15 e 20 milhões de pessoas nos próximos dias, declarados feriados em Teerã, muitos moradores preferem sair da capital em um contexto marcado por um frágil cessar-fogo entre Irã e Estados Unidos, seis meses depois de uma onda de protestos reprimida com violência.
Estes são alguns depoimentos coletados pela AFP em Paris, enquanto o Irã se prepara para o funeral, previsto para sábado, quatro meses após a morte do aiatolá em um ataque no início da guerra.
- Azadeh vê Teerã esvaziar -
"Muitos habitantes de Teerã estão fugindo para evitar as multidões e cerimônias. A cidade está incomumente tranquila", conta Azadeh, de 43 anos, tradutora em Teerã, enquanto, ao contrário, as estradas para sair da capital estão congestionadas.
"Não sei de onde se supõe que vão sair esses mais de 15 milhões de participantes de que falam. As pessoas dizem que no sábado chegarão trabalhadores e até estudantes de ônibus. O que mais me preocupa são as crianças; espero que não acabem esmagadas pela multidão".
- Saied, sufocado pelo clima -
"Eu também estou indo embora, porque ficar na cidade se tornou realmente difícil. O clima está muito tenso", afirma Saied, de 29 anos, que trabalha no setor de novas tecnologias.
"Muitas ruas estão fechadas, os controles noturnos voltaram e a capital está cheia de forças de segurança e de pessoas com roupas religiosas conservadoras. É inquietante, não aguento mais", acrescenta, colocando em dúvida os números divulgados pelas autoridades.
"Na minha opinião, talvez consigam reunir quatro ou cinco milhões de apoiadores, e depois a mídia estatal vai dizer que havia 20 milhões".
- "De onde vem esse dinheiro?", pergunta Ali -
"O governo afirma ter previsto comida, bebidas, alojamento e outros serviços para 15 milhões de participantes", destaca Ali, de 49 anos, morador de Tonekabon, às margens do Mar Cáspio.
"Mas de onde vem esse dinheiro? Só nestes últimos dias o preço do pão e de alguns produtos básicos voltou a subir 30%", lembra, em um país afetado por uma inflação descontrolada.
- Para Kaveh é propaganda para um "ditador" -
Kaveh, artista visual de 38 anos, também lamenta o dinheiro gasto em uma "cerimônia que não traz nada para as pessoas comuns, além de frustração".
"Nenhuma dessas supostas infraestruturas — tendas temporárias, banheiros químicos, internet de emergência, comida — jamais foi colocada à disposição dos iranianos durante crises como terremotos ou enchentes. Agora, com uma economia devastada após a guerra, eles gastam o dinheiro dessas mesmas pessoas em uma cerimônia extravagante e cara em homenagem a um ditador. Não passa de um roubo de dinheiro público e propaganda".
- "Vidas em perigo": a preocupação de Effat -
Outros, como Effat, dona de casa de 67 anos de Mashhad (nordeste), temem "que uma má organização possa colocar vidas em risco".
"Também temo que ocorram atos de violência ou um atentado terrorista destinado a atrair a atenção internacional. Quando uma tragédia desse tipo acontece, as autoridades se apressam em culpar atores externos, como Israel ou a oposição, antes mesmo de que os fatos tenham sido esclarecidos".
- Elnaz, na 'bolha' dos que não se sentem envolvidos -
Elnaz, pintora de 32 anos que vive em Teerã, afirma que "não se sente envolvida". "Para gente como nós (...), que não somos religiosos e não temos vínculos com o governo, o fato de Khamenei estar vivo ou não nada muda em nossa vida cotidiana".
"Há anos dá a impressão de que as pessoas comuns e os apoiadores do governo vivem em duas bolhas distintas dentro do mesmo país. Esta cerimônia não é diferente de outros eventos oficiais ou religiosos que só mobilizam uma minoria da sociedade iraniana".
Ch.Campbell--AT