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Agricultores indígenas decidem endurecer protestos na Bolívia
Em uma praça do altiplano boliviano, uma pedra atinge um palanque: centenas de agricultores aimarás de poncho vermelho perdem a paciência e exigem de seus líderes o endurecimento dos protestos que pedem a saída do presidente de centro-direita Rodrigo Paz.
"Que ele renuncie, porra!", grita a multidão, que mistura aimará e espanhol no pequeno povoado de Tilata, a sudoeste de La Paz.
"Queremos que ele vá embora. Não queremos que ele governe (...). Não vamos deixar de bloquear as estradas até que esse governo incapaz saia", disse à AFP Lidia Callisaya, líder camponesa de 42 anos, sob um sol intenso a 3.950 metros de altitude.
Para chegar ao local, os veículos exibem como salvo-conduto uma wiphala, a bandeira dos povos andinos, para atravessar os bloqueios montados com pedras, troncos e escombros em uma mobilização que já dura mais de 40 dias.
Na província de Ingavi, onde fica o povoado, estão alguns dos bloqueios mais críticos, que impedem o abastecimento de alimentos, medicamentos e combustíveis nas principais cidades do país de 11 milhões de habitantes.
"Vamos radicalizar os pontos de bloqueio. Nenhum produto entra ou sai! Somos nós que alimentamos a cidade", afirma um dirigente no palanque, agora aplaudido pelos agricultores.
Embora os agricultores organizem a maioria dos bloqueios, operários, mineiros, transportadores e professores também aderiram aos protestos para rejeitar a guinada neoliberal de Rodrigo Paz, que em novembro encerrou 20 anos de governos socialistas de Evo Morales (2006-2019) e Luis Arce (2020-2025).
Os manifestantes também exigem uma solução para a pior crise econômica do país em quatro décadas.
- "Sempre lutamos" -
O cabildo, como é chamada a reunião ao ar livre, é protegido por dezenas de indígenas com as bochechas inchadas pelas folhas de coca que mastigam. Eles carregam chicotes a tiracolo e usam chapéus com papéis que dizem "Polícia sindical".
Esse cabildo é apenas um dos 20 que precisam ser realizados em cada província de La Paz antes que o sindicato departamental tome uma decisão final sobre os rumos do protesto.
Por enquanto, porém, a tendência é clara: intensificar os bloqueios e rejeitar os apelos ao diálogo feitos por Rodrigo Paz.
"O governo está tentando nos cansar. Houve uma resposta (às reivindicações dos agricultores), mas são apenas promessas nas quais as pessoas não acreditam", disse à AFP Vicente Salazar, principal dirigente dos agricultores indígenas de La Paz.
"O povo se levantou e exigiu, em ultimato, a renúncia do presidente", acrescentou.
Embora nas últimas duas semanas o número de bloqueios tenha caído de cerca de 100 para aproximadamente 50 em todo o país, segundo a estatal Administradora Boliviana de Carreteras, a escassez persiste nas cidades.
Em La Paz, sede do governo, e em El Alto, muitos alimentos tiveram seus preços dobrados, há falta de oxigênio nos hospitais e motoristas dormem em seus veículos à espera de combustível.
Nas estradas de Ingavi até a fronteira com o Peru, os agricultores permanecem há semanas em acampamentos.
O governo Paz denuncia que os manifestantes que pedem sua renúncia são "narcoterroristas", vinculados ao ex-presidente Evo Morales, foragido por um caso de suposto abuso sexual de uma menor, acusação que ele rejeita.
"Como indígenas, mulheres de pollera, somos perseguidas pelo governo (...). Nos chamaram de vândalos, terroristas", afirma Marlen Quiroga, advogada e líder camponesa de 43 anos, vestindo uma pollera verde, a tradicional saia andina.
"Não somos evistas (partidários de Evo Morales, NDLR), somos indígenas. Desde nossos ancestrais, sempre lutamos", diz Quiroga.
M.Robinson--AT