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Trégua entre EUA e Irã está por um fio enquanto guerra se intensifica no Líbano
A trégua de duas semanas pactuada entre Irã e Estados Unidos está por um fio, depois que Teerã ameaçou nesta quarta-feira (8) retomar as hostilidades enquanto Israel lançava um grande bombardeio sobre o Líbano.
Tanto Washington quanto Teerã clamaram vitória após estabelecerem um cessar-fogo de duas semanas e negociações destinadas a encerrar uma guerra que já provocou milhares de mortes em todo o Oriente Médio e causou turbulências econômicas em nível global.
Mas as fissuras do acordo vieram à tona rapidamente quando Israel realizou seus ataques mais intensos contra o vizinho Líbano desde que o grupo xiita Hezbollah, apoiado pelo Irã, se juntou ao conflito no início de março.
Pelo menos 182 pessoas morreram e quase 900 ficaram feridas nesta quarta-feira, segundo o governo libanês, que decretou a quinta-feira como dia de luto nacional.
Israel assegurou que sua luta contra o Hezbollah não fazia parte da trégua entre Estados Unidos e Irã, acordada nas últimas horas de terça-feira, um argumento reiterado pelo vice-presidente americano, JD Vance, que vai liderar as conversas com Teerã no Paquistão no fim de semana.
"Se o Irã quer que esta negociação fracasse por causa de um conflito no Líbano, onde estão sendo massacrados – um conflito que não tem nada a ver com eles e que os Estados Unidos nunca disseram que faria parte do cessar-fogo –, essa é uma escolha deles", afirmou Vance antes de partir de Budapeste, na Hungria.
Mas o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, disse nesta quarta que o cessar-fogo e as conversas com os Estados Unidos são "pouco razoáveis".
Segundo ele, três pontos do acordo já foram violados com os contínuos ataques no Líbano, a entrada de um drone no espaço aéreo iraniano e a negativa ao direito de o Irã enriquecer urânio.
- Pânico em Beirute -
No Líbano, os bombardeios sem aviso prévio provocaram pânico.
"As pessoas começaram a correr de um lado para o outro, e a fumaça subia", disse Ali Younes, que esperava sua esposa perto de Corniche al-Mazraa, uma das áreas atacadas.
Mais de 1.700 pessoas morreram no Líbano desde que Israel lançou, no mês passado, bombardeios aéreos e uma invasão terrestre, segundo funcionários locais.
A Guarda Revolucionária, o exército ideológico do Irã, advertiu que "cumpriria com seu dever e daria uma resposta" se Israel não interrompesse os ataques no Líbano, e o Hezbollah indicou que tinha o "direito" de responder.
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, garantiu que o seu país permanece preparado para enfrentar o Irã se for necessário, pois ainda tinha "objetivos a concluir".
Por sua vez, a polícia israelense anunciou que os Lugares Santos das três principais religiões monoteístas — judaísmo, cristianismo e islã — em Jerusalém voltarão a abrir nesta quinta.
- Negociações de alto risco -
Esta retórica beligerante acontece antes de negociações de alto risco previstas para a sexta-feira no Paquistão, e depois que o Irã aceitou reabrir temporariamente o Estreito de Ormuz, após a ameaça de aniquilação da "civilização" iraniana por parte de Trump.
Dois navios, um grego e outro com bandeira da Libéria, puderam passar por essa via estratégica por onde passava um quinto da produção de petróleo mundial antes da guerra.
Mas informações indicaram que a estratégica via voltou a ser fechada mais tarde, o que levou a Casa Branca a pedir ao Irã que a reabrisse "imediatamente, de forma rápida e segura".
O primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, cujo país mediou o cessar-fogo, instou, na rede social X, "moderação" a todas as partes.
Apesar da trégua, a imprensa estatal iraniana anunciou novos "ataques com mísseis e drones" nesta quarta-feira contra Estados do Golfo aliados de Washington em represália pelos bombardeios contra suas instalações petrolíferas.
O Kuwait reportou danos em suas usinas de energia e dessalinização durante "uma intensa onda" de ataques.
Os Emirados Árabes Unidos indicaram que foram alvo de 17 mísseis iranianos e 35 drones desde a vigência da trégua, e a Arábia Saudita interceptou nove aeronaves não tripuladas e o Bahrein reportou um ataque contra sua capital, Manama.
- 'Tranquilo' -
Após semanas de turbulências econômicas, o anúncio do cessar-fogo provocou forte queda, de até 15%, nos preços do petróleo, enquanto o gás natural europeu recuou 20%. As bolsas dispararam e o dólar caiu.
Trump afirmou que os Estados Unidos estavam "muito avançados" na negociação de um acordo a longo prazo com o Irã.
Mas as exigências de Teerã em matéria de enriquecimento de urânio — um procedimento com o qual, segundo países do Ocidente, o Irã busca obter a bomba nuclear —, sanções econômicas e o controle futuro de Ormuz continuam indo de encontro às de Washington.
Em Teerã, as ruas estavam mais quietas que o habitual nesta quarta, com muitos comércios fechados após uma longa noite de angústia para os moradores, que temiam um ataque americano maciço.
"Agora todo o mundo está tranquilo", comentou Sakineh Mohammadi, uma dona de casa de 50 anos, que afirmou estar "orgulhosa" de seu país.
burx-am-cnp/anb/pc-jvb-erl/an/ad/arm/rpr/am
L.Adams--AT