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Vietnã na vanguarda do investimento privado estrangeiro no campo cubano
Uma potente debulhadora vermelha colhe arroz em Los Palacios, a oeste de Havana. É a primeira vez que uma empresa privada, a vietnamita Agri VAM, explora terras em Cuba.
A empresa obteve com êxito sua primeira colheita, mas enfrenta obstáculos como o congelamento de seus fundos em bancos da ilha comunista, escassez de combustível e problemas de transporte, explica o economista cubano Omar Everleny Pérez e outras fontes próximas ao assunto consultadas pela AFP.
Embora a Agri VAM e outras empresas estrangeiras em Cuba tenham lucros, "não podem transferi-los para o exterior porque os bancos (cubanos) não têm dinheiro (...) não têm divisas" e congelam seus fundos, explicou Pérez.
O campo em Cuba esteve por décadas sob responsabilidade de produtores nacionais. O Vietnã havia assessorado Cuba no cultivo de arroz, mas é a primeira vez que uma empresa privada obtém terras em usufruto na ilha comunista.
A empresa vietnamita, uma subsidiária do produtor de alimentos Fujinuco Group, recebeu este ano 1.000 hectares para plantar arroz, um alimento indispensável na mesa dos cubanos, que têm um consumo per capita de 60 quilos por ano.
O governo aprovou este investimento após uma queda de 52% na produção agrícola entre 2018 e 2023, de acordo com dados do Centro de Estudos da Economia Cubana da Universidade de Havana.
A produção de arroz caiu de 300.000 toneladas em 2018 a 55.000 durante a pandemia, com uma lenta recuperação nos últimos anos, de acordo com autoridades.
Em Los Palacios, 118 quilômetros a oeste de Havana, a empresa vietnamita recuperou um campo de arroz abandonado, limpou a vegetação e colocou em funcionamento uma fábrica automatizada de secagem de arroz que estava em desuso.
- Resultados e problemas -
Após 120 dias de trabalho árduo, os resultados chegaram. "Temos (um rendimento de) sete toneladas (por hectare) e queremos mais", disse orgulhoso à imprensa um técnico da Agri VAM, em maio.
Este rendimento supera em muito a tonelada e meia que os agricultores cubanos obtêm por hectare.
Não é por acaso que o Vietnã tenha se voltado para o campo cubano. Assim como a ilha caribenha sofre agora escassez de alimentos, na década de 1980, o país asiático passou por situações semelhantes. No entanto, atualmente é o terceiro exportador de arroz mundial.
"Aqui vemos que o clima e a temperatura são muito bons para a agricultura. Os cubanos trabalham também, mas faltam muitos produtos, por exemplo, fertilizantes, produtos químicos", disse o técnico vietnamita, reclamando das dificuldades causadas pela falta de combustível e transporte.
- Dinheiro "congelado" -
A empresa importa os insumos, mas enfrenta outros obstáculos.
O jornal independente 14ymedio publicou há duas semanas que teve acesso a uma carta escrita em maio, na qual a Agri VAM reclamava ao governo 300 mil dólares (1,6 milhão de reais na cotação atual) de fundos congelados em uma conta sua no Banco Financeiro Internacional, propriedade do Estado cubano. É dinheiro que a empresa precisa para importar matérias-primas.
Durante uma visita a Cuba, o vice-ministro da Agricultura do Vietnã, Nguyễn Quốc Tri, pediu ao governo cubano que ajudasse a resolver as dificuldades enfrentadas pelas empresas de seu país com o objetivo de manter e ampliar o modelo de produção de arroz de alta qualidade, segundo a imprensa oficial vietnamita.
"Se você pegou o dinheiro dos depositantes para outros fins, no final, os bancos ficam sem dinheiro. E então são dezenas de milhões de dólares que foram congelados de empresas estrangeiras", lamentou o economista cubano.
A AFP contactou a empresa vietnamita e as autoridades cubanas para consultar sobre esta questão, mas não obteve resposta. O Ministério das Relações Exteriores do Vietnã afirmou que todas as informações sobre a visita do vice-ministro "já foram publicadas pelos jornais".
Diante desta situação, o primeiro-ministro Manuel Marrero Cruz anunciou em julho que o governo implementará "medidas e ações para dinamizar o investimento estrangeiro" e autorizará "empresas de capital totalmente estrangeiro" no setor hoteleiro.
Mergulhada em uma profunda crise econômica provocada pela pandemia do coronavírus, pelo endurecimento do embargo de Washington e por uma reforma monetária fracassada, Cuba precisa de investimento estrangeiro.
Assim como o Vietnã, outros países amigos já demonstraram interesse.
Depois de três anos de promessas da Rússia, o vice-primeiro-ministro russo, Dmitry Chernyshenko, anunciou em maio que seus empresários desejam investir 1 bilhão de dólares (5,4 bilhões de reais na cotação atual) em Cuba e que Moscou concederá uma taxa preferencial de financiamento a projetos russos na ilha. Mas ele esclareceu que ainda há "muito trabalho a ser feito" e que nada se consegue "por mágica".
A.Ruiz--AT