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Morales vs. Arce, a disputa por trás dos protestos que paralisam a Bolívia
A Bolívia está parcialmente paralisada por causa de bloqueios rodoviários realizados desde 22 de janeiro por apoiadores do ex-presidente Evo Morales, impedido por magistrados a se candidatar novamente à Presidência.
Os protestos acirraram a disputa dentro do governo entre o ex-presidente e seu sucessor, Luis Arce, ex-aliado e hoje seu maior adversário em sua tentativa de voltar ao poder.
- Como os protestos começaram? -
No fim de dezembro, o Tribunal Constitucional inabilitou Morales como candidato presidencial para as eleições de 2025, alegando que a reeleição indefinida não é um "direito humano", como havia apontado em outra sentença de 2017.
A corte, cujos membros são considerados alinhados ao governo, também argumentou que o ex-dirigente de 64 anos já exerceu os dois mandatos que a Constituição permite.
Amparado nas reformas constitucionais que ele próprio promoveu, Morales ocupou a Presidência entre 2006 e 2019, quando foi forçado a renunciar, assediado pela crise que explodiu devido a uma suposta fraude eleitoral para conquistar um quarto mandato.
Após esta decisão recente, cocaleiros foram às ruas para exigir a renúncia dos juízes constitucionais que prorrogaram seus próprios mandatos diante da falta de um acordo no Congresso para convocar eleições judiciais no ano passado.
Eles também pedem a convocação o quanto antes da eleição de um novo tribunal.
"Enquanto os juízes atuais estiverem em seus cargos, a candidatura de Evo é inviável", afirmou a cientista política Ana Velazco.
Em sua opinião, Morales pretende que uma nova corte - formada por magistrados alinhados a ele - reverta a sentença, revivendo suas aspirações.
- Por que contra Arce? -
"Este conflito é a expressão de uma disputa travada dentro do partido do governo, uma disputa de quem vai ser indicado candidato", afirma Carlos Cordero, analista da privada Universidade Católica Boliviana.
Além dos juízes, os protestos têm como alvo o governo. No ano passado, Morales rompeu abertamente com Arce, que foi seu ministro da Economia e cuja candidatura ele impulsionou com êxito em 2020.
A disputa rachou a situação, que detém maiorias no Congresso.
A ala governamental do Movimento ao Socialismo (MAS) proclamou Arce candidato para 2025. Outro setor abraçou as pretensões de Morales.
A disputa é travada na justiça, no Legislativo e há uma semana nas ruas. Sem liderança única, a oposição ainda não se apresenta como uma opção sólida para 2025.
"Uma coisa era Evo como presidente, podendo gerenciar muitos recursos do Estado (...) aos quais agora não tem acesso, mas outra coisa é Evo dirigente. Quer mostrar que pode pôr o governo em xeque", afirma Ana Velazco.
O líder indígena acredita que Arce, de 60 anos, juízes e congressistas se aliaram para boicotar suas pretensões de voltar ao poder.
"O Governo não quer uma justiça para o povo, quer uma justiça submissa e submetida ao Poder Executivo para não respeitar a Constituição Política do Estado", afirmou Morales na rede social X.
- Qual é o impacto dos protestos? -
Com pedras, pedaços de pau e fogueiras, milhares de camponeses bloquearam 36 estradas, a maioria em Cochabamba, berço político de Morales.
As manifestações cortaram a ligação entre o leste e o oeste da Bolívia.
Em cidades como La Paz, já se sentem o desabastecimento e o alto preço de alguns produtos da cesta básica, como o frango.
Segundo o balanço do governo, três pessoas morreram bloqueadas pelos protestos, inclusive um bebê de nove meses com dengue que não conseguiu receber atendimento médico em Cochabamba.
Além disso, 32 policiais ficaram feridos em confrontos nas vias e 21 manifestantes foram detidos com explosivos.
O governo descartou o uso da força militar e culpou diretamente Morales. A ele só interessa "ir tirando tudo aquilo que interfere em sua obsessão de chegar novamente à Presidência", afirma Jorge Richter, porta-voz do governo.
- Há solução à vista? -
Às custas do governo, as forças divididas da situação no Congresso concordaram em dar início, nesta terça-feira, à discussão de um projeto de lei para convocar eleições judiciais.
O MAS vai chefiar uma comissão "interpartidária" com representantes da oposição, encarregada de preparar uma proposta para levar ao plenário do Legislativo em prazo indeterminado.
No entanto, os apoiadores de Morales mantêm a pressão.
Aqui "não está sendo reconhecida a prorrogação dos magistrados. Tampouco abordou-se ou acordou-se suspender os bloqueios", alertou o presidente da Câmara Alta, Andrónico Rodríguez.
A.Moore--AT