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Brasil pode ser o próximo fornecedor global de terras raras?
Escondidos sob o solo brasileiro, milhões de toneladas de terras raras despertam o interesse global, com os Estados Unidos na vanguarda. No entanto, embora representem o novo ouro brasileiro para alguns, o boom parece distante.
Essenciais para fabricar desde carros elétricos a mísseis, esses 17 elementos são abundantes na terra, mas a China detém as maiores reservas e a tecnologia para processá-los.
Hoje, a produção brasileira é insignificante, enquanto o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tenta incentivar seu desenvolvimento e manter o controle sobre essa fonte de renda inesperada.
O Brasil pode se tornar um novo fornecedor global de terras raras?
Aqui estão algumas respostas importantes.
Qual é o tamanho do tesouro?
O Brasil possui mais de 20 milhões de toneladas de elementos de terras raras, segundo estimativas do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS). É a segunda maior reserva mundial, atrás da China e muito à frente da terceira maior: a Índia, com 6,9 milhões de toneladas.
Mas as exportações são marginais. O país exportou 20 toneladas em 2024, uma fração ínfima da produção global estimada naquele ano em 390 mil toneladas pelo USGS.
A China responde por cerca de dois terços do total.
Por que produz tão pouco?
Elementos de terras raras, como o neodímio e o praseodímio, aparecem em areias, argilas e rochas, juntamente com dezenas de outros compostos, e precisam ser separados por meio de um processo custoso.
"Na transição entre o que a gente tira da terra e o óxido (de terras raras), por exemplo, que seria 99,9999% de pureza, você tem pelo menos 400 processos industriais", explicou Pablo Cesario, presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), que representa as principais empresas do setor.
"A gente consegue fazer isso em escala laboratorial. O que nós não temos e quase ninguém no mundo tem é essa tecnologia de processamento em escala industrial", detalhou Cesario em uma coletiva de imprensa virtual.
Portanto, são necessárias "infraestrutura", "pesquisa tecnológica" e um fornecimento de energia mais barato e abundante, antecipou Julio Nery, diretor de assuntos de mineração do Ibram.
Quem corre atrás das terras raras?
Os Estados Unidos encontraram no Brasil uma oportunidade para desafiar a posição dominante da China no mercado de terras raras.
"A gente está olhando para o Brasil como um lugar que tem potencial de bilhões em investimentos dos Estados Unidos. A gente já está neste caminho com mais de 600 milhões de dólares investidos (cerca de 3 bilhões de reais)", disse um porta-voz da embaixada dos EUA, sob condição de anonimato, à imprensa durante um evento para investidores em março.
Durante o encontro, Washington assinou um memorando de entendimento com o estado de Goiás para incentivar a mineração de terras raras.
Em abril, a empresa americana USA Rare Earth adquiriu a Serra Verde, empresa que opera a única mina em produção no Brasil, localizada em Goiás, por aproximadamente 2,8 bilhões de dólares (cerca de 14 bilhões de reais).
A Austrália também está presente no Brasil por meio da empresa Foxfire Metals, enquanto a China possui participação em um projeto na Amazônia, segundo o Ibram.
Qual é o papel do governo?
O presidente Lula expressou sua disposição de "fazer acordos com todos os países", mas enfatizou que "ninguém, a não ser o Brasil, será dono da nossa riqueza".
Esta semana, Lula estendeu a mão ao presidente americano, Donald Trump, convidando-o a se "associar" com o Brasil na exploração de terras raras, dias após se reunir com o americano na Casa Branca. A relação entre os dois tem sido marcada por altos e baixos.
Enquanto isso, a Câmara dos Deputados aprovou neste mês um projeto de lei que oferece incentivos fiscais ao setor privado para explorar esse setor, ao mesmo tempo em que reforça o controle estatal.
O texto concede ao Executivo poder de veto sobre acordos com empresas estrangeiras por razões de "segurança econômica ou geopolítica", uma medida que irritou o setor privado.
"O que está escrito ali é que o governo tem a última palavra em tudo. E isso é uma preocupação", disse Pablo Cesario.
"A expectativa é que esse texto mude lá no Senado", onde será debatido em data ainda a ser definida, acrescentou.
P.Hernandez--AT