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Rússia engana estrangeiros para lutar na Ucrânia, denuncia Anistia Internacional
A Rússia engana estrangeiros de países como Brasil, Colômbia e Cuba para que lutem na Ucrânia, denunciou a Anistia Internacional nesta quinta-feira (10) em um relatório que cita entrevistas com prisioneiros de guerra que assinaram contratos militares com Moscou, segundo a organização.
Entre as vítimas, além de brasileiros e colombianos, há cidadãos do Sri Lanka e da África do Sul. Alguns foram atraídos para a Rússia por anúncios de emprego falsos e obrigados a se alistar após chegar ao país, informou a organização de defesa dos direitos humanos com sede em Londres.
Em junho, uma investigação da AFP também revelou que Moscou recorria a promessas de empregos bem remunerados no setor civil para recrutar quenianos que acabavam sendo enviados para lutar no front.
"O sofrimento relacionado (...) a essa internacionalização da guerra afeta comunidades e indivíduos muito vulneráveis em todo o mundo", afirmou a secretária-geral da Anistia Internacional, Agnès Callamard, em entrevista à AFP por ocasião da publicação do relatório.
Até o momento, as autoridades russas não se pronunciaram publicamente sobre as acusações da Anistia Internacional.
Tanto Moscou quanto Kiev recrutam estrangeiros para seus Exércitos desde que a Rússia invadiu a Ucrânia, há quatro anos e meio.
A Ucrânia estimou em abril que mais de 28 mil estrangeiros de 136 países combatiam no Exército russo. A eles se somam, segundo as autoridades ucranianas, cerca de 14 mil soldados norte-coreanos que lutaram contra as forças de Kiev durante a ofensiva ucraniana na região russa de Kursk, em 2024.
A Ucrânia também recorre a combatentes estrangeiros, mas a Anistia afirmou que não conseguiu entrar em contato com aqueles mantidos presos na Rússia porque a organização foi classificada como "agente estrangeiro" por Moscou.
Nem Moscou, nem Kiev divulgaram o número total de soldados estrangeiros que combatem em suas fileiras.
"Obviamente, há muitas pessoas que trabalham para o Estado russo e sabem que aqueles que estão recrutando para enviar à linha de frente são vítimas de tráfico", afirmou Callamard.
"São cúmplices desse fenômeno e deveriam prestar contas", acrescentou.
Segundo ela, no exterior, a Rússia costuma buscar homens com menos de 40 anos, que vivem em países mais pobres e são atraídos pela "promessa de um emprego".
A Rússia já rejeitou em outras ocasiões as acusações de que obriga estrangeiros a se alistar em seu Exército.
- "Bucha de canhão" -
Entre os principais métodos usados pelos recrutadores para atrair estrangeiros estão anúncios de emprego publicados na internet, muitas vezes para vagas inexistentes, segundo a organização.
"E então começa a coerção. Seus passaportes são confiscados. Eles são obrigados a assinar documentos que não entendem. São submetidos a treinamentos que não entendem" e depois enviados para o front, explicou Callamard.
"Basicamente, são bucha de canhão", resumiu a secretária-geral da Anistia Internacional.
Um caminhoneiro sul-africano, por exemplo, foi convidado a viajar a Moscou para trabalhar como motorista e, assim que chegou, "confiscaram tudo" o que ele tinha, segundo o relatório.
Os recrutadores também têm como alvo estrangeiros que vivem de forma irregular na Rússia, aos quais prometem autorização de residência ou passaporte em troca do alistamento, afirma a organização.
Durante uma visita supervisionada a um centro de detenção na Ucrânia, em fevereiro, a AFP ouviu relatos semelhantes de prisioneiros estrangeiros que haviam combatido pela Rússia.
Vários afirmaram que foram instruídos a assinar contratos que não compreendiam e submetidos a treinamentos muito básicos. Também relataram dificuldades para se comunicar com seus superiores devido à barreira do idioma.
O tráfico de seres humanos, segundo a definição das Nações Unidas, consiste no recrutamento, transporte ou alojamento ilegal de pessoas por meio de fraude, engano ou abuso de poder.
Callamard afirmou que o crime se caracteriza pelo "deslocamento de pessoas", pelo uso de "meios coercitivos, falsas promessas e violência" e por uma "situação de exploração".
A secretária-geral da organização pediu à Ucrânia e aos governos dos países cujos cidadãos foram alvo desse sistema de recrutamento que apresentem provas desse "tráfico de pessoas" para que os responsáveis sejam processados.
Embora tenha reconhecido que provavelmente essas investigações não serão uma prioridade para a Ucrânia, Callamard recomendou que Kiev as conduza.
"Além disso, isso demonstraria que a Ucrânia tem valores e uma abordagem muito diferentes dos da Rússia", afirmou.
P.Hernandez--AT