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Governo francês faz concessões para tentar deter protestos de agricultores
O governo francês anunciou nesta sexta-feira (26) a revogação do aumento do diesel de uso agrícola e sua oposição à assinatura do acordo entre a União Europeia (UE) e o Mercosul, na tentativa de desativar os protestos dos agricultores que ameaçam bloquear Paris.
As ações iniciadas pelos agricultores há oito dias para denunciar sua situação econômica vieram se intensificando até esta sexta, quando dezenas de tratores começaram a bloquear as principais estradas ao redor da capital.
"Vocês quiseram enviar uma mensagem [...]. A mensagem foi recebida alta e clara", disse o primeiro-ministro, Gabriel Attal, durante uma visita a um pecuarista em Montastruc-de-Salies, no sul da França, onde anunciou uma série de medidas para responder à fúria agrícola.
Além do recuo no aumento da taxa do diesel agrícola, ele anunciou um maior controle nas negociações entre o setor e os distribuidores, apoio a setores específicos como a agricultura orgânica e uma redução nos trâmites administrativos, entre outras.
No âmbito internacional, reiterou a oposição da França à "assinatura" do tratado negociado entre a UE e os países do Mercosul - Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. "O presidente [Emmanuel Macron] sempre se opôs e continuamos e continuaremos nos opondo", garantiu.
O chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell, reconheceu no dia anterior que a "atual crise da agricultura europeia" poderia representar um "obstáculo" para este tratado, que precisa do aval de todos os países da UE para ser assinado pela Comissão Europeia.
"Decidimos colocar a agricultura acima de tudo", insistiu o primeiro-ministro, em pé atrás de fardos de palha, garantindo que esta sexta-feira marca "um novo capítulo para a agricultura francesa".
- "Nosso trabalho é cultivar" -
A agricultura é um setor culturalmente importante na sétima maior economia do mundo, apesar de sua participação no Produto Interno Bruto (PIB) ter recuado fortemente de 18,1% em 1949, no período pós-Segunda Guerra Mundial, para 2,1% em 2022, segundo dados oficiais.
Os sindicatos agrícolas ainda não reagiram aos anúncios do governo, que atende em grande parte às suas reivindicações. "Acredito que vencemos", estimou, no entanto, Jérôme Bayle, um dos agricultores mais conhecidos dos protestos, à emissora BFMTV.
Pela manhã, os protestos já haviam forçado o fechamento de uma rodovia importante que conecta Paris ao norte da Europa e cerca de 400 quilômetros de estradas no sul da França, entre a cidade de Lyon (leste) e a Espanha, algo "nunca visto", segundo a empresa concessionária Vinci Autoroutes.
E, nesta sexta, incendiaram um prédio da segurança social dos agricultores MSA em Narbonne, no sul da França, e bloquearam o porto de Bayonne (sudoeste) e um depósito de petróleo na cidade portuária de Lorient (oeste).
- Defesa da UE -
Além do acordo com o Mercosul, a UE também estava na mira do setor por sua estratégia de combate às mudanças climáticas, que inclui medidas como a redução do uso de pesticidas.
"Sair da Europa é privá-los de 9 bilhões de euros anuais" (48 bilhões de reais) em subsídios, alertou Attal aos agricultores, anunciando que Macron pedirá a revisão de algumas condições para receber essas subvenções, como a obrigação de deixar 4% das terras aráveis em pousio.
Os protestos agrícolas, que também ocorreram na Polônia, Alemanha e Romênia, acontecem cerca de quatro meses antes das eleições para o Parlamento Europeu, instituição chave para estabelecer as normas ambientais do bloco. A extrema direita lidera as pesquisas na França.
"Gabriel Attal não anunciou nada que garanta a sustentabilidade e a renovação do modelo agrícola francês", escreveu no X Jordan Bardella, candidato de extrema direita nessas eleições.
L.Adams--AT