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'Meu avô era nazista?': registros on-line revelam passado de alemães durante o nazismo
Muitas famílias alemãs se deparam com uma pergunta incômoda: o que o avô estava fazendo durante a guerra? Agora, a resposta está a apenas alguns cliques de distância, com segredos perturbadores vindo à tona.
A mudança ocorreu em março, quando os Arquivos Nacionais dos Estados Unidos publicaram on-line as digitalizações de aproximadamente 12 milhões de carteirinhas de filiação ao Partido Nazista de Adolf Hitler, que haviam sido confiscadas pelas tropas americanas após a derrota da Alemanha na Segunda Guerra Mundial.
Desde a publicação em massa na internet, os segredos de muitas famílias alemãs que permaneceram ocultos durante décadas ficaram, de repente, a apenas uma simples busca de distância.
Duas importantes revistas semanais, Die Zeit e Der Spiegel, lançaram rapidamente ferramentas on-line para ajudar a encontrar os documentos com mais rapidez.
"Meu avô era nazista?", perguntavam as manchetes das notícias em todo o país.
Desde então, centenas de milhares de alemães têm buscado nos registros os nomes de seus antepassados, muito conscientes de que poderiam se deparar com verdades desagradáveis.
Uma delas, Corinna, de 60 anos, disse que soube que seu falecido pai ingressou no Partido Nazista em 1935, dois anos após Hitler chegar ao poder.
"Quando minha filha mais nova me contou por telefone e depois me mandou uma captura de tela do arquivo, fiquei bastante surpresa", disse Corinna, que pediu à AFP que não utilizasse seu sobrenome.
Ela afirmou que sabia que o pai havia lutado na França e na Rússia com o exército alemão e que ele ficou gravemente ferido, mas que ele nunca mencionou nenhuma simpatia nazista depois da guerra. Ela própria acreditava que ele era social-democrata.
- Décadas de silêncio -
Embora o Estado alemão tenha feito grandes esforços para recordar e reparar o passado nazista e o Holocausto, em muitas famílias prevaleceu uma cultura de silêncio.
Mais de um em cada dez cidadãos havia se filiado ao Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP) quando o Terceiro Reich foi derrotado em 1945. Mas, depois da guerra, esta geração "deixou claro que certas coisas não deviam ser discutidas", disse o historiador Johannes Spohr, que há anos ajuda pessoas a rastrear o passado nazista de seus antepassados.
Spohr destacou que muitos ex-nazistas "muitas vezes não apenas se calavam, mas também contavam uma versão diferente da história", apresentando-se com frequência como vítimas do nazismo ou até como membros do pequeno movimento de resistência.
Pesquisas recentes mostraram que uma porcentagem incrivelmente alta de alemães, entre 11% e 18%, acredita que seus avós tentaram ajudar pessoas perseguidas pelo regime nazista, afirmou. O número real, segundo as pesquisas mais recentes, é inferior a 1%, disse.
Felix Puelm, um professor de história de 42 anos, disse à AFP que descobriu que sua avó, já falecida, havia se juntado aos nazistas em 1940, quando tinha 19 anos.
Ele afirmou que gostaria de ter conseguido "fazer mais perguntas" à avó antes de ela falecer. E comentou que, após a guerra, seus avós não demonstraram qualquer simpatia pelo regime de Hitler.
"Mas eles não haviam revelado tudo o que fizeram naquela época", afirmou o professor, que trabalha na Universidade Silpakorn, na Tailândia.
Spohr indicou que a data em que alguém se filiou aos nazistas pode dar pistas sobre seu nível de comprometimento.
"Se alguém se filiou na década de 1920 ou no início da de 1930, antes de Hitler chegar ao poder, isso costuma indicar uma convicção, que realmente queriam lutar ativamente pela causa", explicou.
A partir de 1933, é possível que mais pessoas tenham agido por oportunismo, para garantir um emprego ou se beneficiar de alguma outra forma da hierarquia nazista.
Segundo Puelm, esta nova janela para os arquivos do nazismo pode levar mais alemães a refletir sobre a atual ascensão da extrema direita representada pelo partido Alternativa para a Alemanha (AfD), que lidera as pesquisas.
P.Hernandez--AT