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Diretor de 'O Agente Secreto', Kleber Mendonça se diz 'muito impressionado' com repercussão do filme
A crescente influência do cinema estrangeiro entre os eleitores da Academia responsável pelo Oscar não passa despercebida para os diretores indicados ao prêmio de Melhor Filme Internacional na 98ª cerimônia do Oscar, a maior festa de Hollywood, em 15 de março.
Isto é evidente com a popularidade no mercado americano das produções em língua não inglesa, cuja presença na categoria de Melhor Filme se tornou uma tendência (este ano, o brasileiro "O Agente Secreto" e o norueguês "Valor Sentimental" entraram na disputa).
O brasileiro Kleber Mendonça Filho, diretor de "O Agente Secreto", disse estar "muito impressionado" com a repercussão de seu filme, uma crônica da perseguição sofrida por um acadêmico (interpretado pelo também indicado Wagner Moura) no Brasil da década de 1970, em tempos de ditadura militar.
"Eu, como brasileiro, fiz um filme brasileiro. Mas eu fico muito impressionado com o filme. Tem tido uma reação muito forte, emocional mesmo, e política no mundo inteiro", declarou à AFP.
Sua esposa e produtora, Emilie Lesclaux, destacou que quando o casal começou a fazer cinema, há mais de duas décadas, "o Oscar parecia algo muito distante, uma festa da indústria americana".
"E aos poucos, a gente viu mudanças reais, que são fruto também de uma abertura, de uma diversificação da própria Academia", acrescentou.
"A gente vê neste ano incrível tantos filmes internacionais sendo tratados iguais aos filmes americanos e filmes fortes e diferentes, que representam várias ideias que estão no mundo", emendou.
- "Reconhecimento, não competição" -
"Trata-se de reconhecimento, não de competição", disse Joachim Trier, diretor de "Valor sentimental", que, com nove indicações, é um dos cinco candidatos a ser coroado como Melhor Filme Internacional.
"Significa que pessoas suficientes no meu grupo de colegas votaram e disseram, 'Você fez um bom trabalho como diretor', e isto é muito significativo", disse o dinamarquês-norueguês de 52 anos, também indicado ao Oscar de Melhor Diretor.
Trier destacou que a diversificação do corpo votante da Academia (composto por indicados e outros representantes da indústria) contribui para sua internacionalização.
Mas o sucesso global de filmes como seu drama familiar, protagonizado por Renate Reinsve e Stellan Skarsgard, se deve ao fato de que vêm de "um espaço pessoal".
"A questão é tentar fazer com que esta grande engrenagem do aparato do cinema vá na direção de um lugar íntimo", comentou.
- "Com as vísceras" -
O franco-espanhol Oliver Laxe concordou.
O cineasta de 43 anos acredita que os filmes que, como o seu "Sirat", entraram na categoria internacional "são honestos".
"Todos os diretores olharam para dentro, tentaram fazer algo com seu coração, com sua alma. E eu também fiz isso com as vísceras", declarou à AFP.
Para Laxe, o sucesso de sua produção, uma meditação contemplativa que sacode o espectador, "prova que as pessoas estão cansadas de ver os mesmos filmes e que é preciso confiar um pouco mais na sensibilidade individual".
Assim como Trier, Laxe não vê a indicação como uma disputa.
"Acredito que aqui não há perdedor. Ganhamos todos", afirmou.
- Sair do nicho -
Uma destas ideias do mundo veio do Irã e foi acolhida pela França para representá-la na cerimônia de gala em Hollywood.
"Foi Apenas um Acidente", do iraniano Jafar Panahi, foi filmado na clandestinidade e põe em cena o dilema de uma sociedade torturada e esmagada: vingança ou perdão?
Panahi, cujo trabalho já o levou à prisão no passado em seu país, aproveita a campanha pelo Oscar para destacar o que está acontecendo no Irã.
Em entrevista à AFP durante o tradicional almoço que a Academia oferece para os indicados, o diretor lamentou a recente prisão de um de seus roteiristas e colaboradores, Mehdi Mahmoudian, sob suspeita de escrever um comunicado para um opositor.
A diretora tunisiana Kaouther Ben Hania também comemorou a indicação de seu dilacerante "A Voz de Hind Rajab", um docudrama que oferece uma oportunidade para a denúncia.
O filme acompanha a situação angustiante de uma menina palestina assolada por disparos israelenses que mataram seus familiares em Gaza e os esforços dos serviços de resgate para salvá-la.
"Minha primeira obsessão era como fazer ressoar a voz desta menina", contou Ben Hania à AFP.
"Porque os filmes em língua árabe com legendas poderiam cair facilmente nesta categoria de cinema de nicho. E minha ambição era tirar o filme deste nicho e mostrá-lo para o mundo", afirmou.
A tunisiana, que conquistou o segundo prêmio do Festival de Veneza no ano passado, disse que o filme coloca o espectador em uma posição de testemunha e o confronta a assumir algum tipo de responsabilidade.
"Quando fiz o filme, tinha a intenção de conseguir isto", disse. "Mas o impacto superou as minhas expectativas".
W.Moreno--AT