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Entrada de 60.000 migrantes no enclave espanhol de Ceuta desata crise europeia
Quase 60 mil pessoas entraram em Ceuta por mar e por terra a partir do Marrocos, uma onda que a Espanha classificou como "ataque à integridade territorial" e provocou uma crise na União Europeia.
Ao menos 34 pessoas morreram na tentativa de chegar ao enclave, segundo o governo local.
A cidade autônoma, com cerca de 84.000 habitantes, vive uma de suas piores crises migratórias dos últimos anos com a chegada, em apenas algumas horas, de dezenas de milhares de pessoas, em sua maioria homens jovens e adolescentes, a nado, mas também saltando as cercas fronteiriças.
Vários países europeus reagiram com firmeza à repentina crise, a começar pela Itália, que afirmou querer fechar o Espaço Schengen à Espanha, uma proposta apoiada pela Finlândia e pela Dinamarca, mas que, segundo juristas consultados pela AFP, impossível de aplicar com o marco legal vigente.
"Estamos preparados para agir, inclusive com medidas excepcionais (...) como a suspensão da Espanha do Espaço Schengen", afirmou a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, de extrema direita.
Em Washington, o presidente dos Estados Unidos, o republicano Donald Trump, qualificou as imagens como "terríveis".
"Estaremos assim dentro de três anos se o lado errado vencer", declarou à Fox News em referência às eleições de meio de mandato de novembro, para as quais os democratas partem com vantagem em algumas pesquisas.
O presidente francês, Emmanuel Macron, ofereceu ajuda à Espanha, enquanto seu ministro do Interior, Laurent Nuñez, anunciou o reforço da fronteira franco-espanhola.
Segundo dados do ministério do Interior espanhol, as chegadas em massa começaram na madrugada de quinta-feira. Nesta sexta-feira, cerca de 37.500 pessoas já haviam retornado ao Marrocos, segundo a mesma fonte.
"Fiquei com medo desde o começo. A sensação é como na pandemia, que é melhor ficar trancado em casa do que na rua", disse Yolanda Moreno, de 56 anos.
"Se você sai para ajudar, atrapalha o pessoal da polícia ou da Guarda Civil, mas se fica em casa, vai sendo consumido pelos nervos", disse à AFP.
Juan Jesús Vivas, presidente da cidade autônoma, lamentou uma resposta "tardia e insuficiente" do governo de Madri e afirmou que "suportar essa pressão é absolutamente impossível".
Nas ruas de Ceuta, um território de 18,5 km², os comércios estavam fechados, e a confederação empresarial local recomendou manter desta forma "até que a segurança esteja garantida".
Uma jornalista da AFP viu policiais ameaçando migrantes com seus cassetetes, indicando o caminho em direção à fronteira com o Marrocos. "Vão embora!", disse um dos agentes a um pequeno grupo no Paseo del Revellín, no centro da cidade.
Também nesta sexta-feira, centenas de habitantes de Ceuta protestaram em frente à Prefeitura sob o lema "Ceuta unida jamais será vencida!".
Alguns gritavam "Vamos para cima deles!" e insultavam o primeiro-ministro espanhol, o socialista Pedro Sánchez, que chegou na manhã desta sexta-feira ao enclave.
- Crise diplomática -
Sánchez qualificou o episódio como um "ataque à integridade territorial" e acusou as "máfias de traficantes" de serem responsáveis por uma "leitura oportunista" de uma recente sentença judicial.
Trata-se da decisão do Tribunal Supremo espanhol, de 8 de julho, que estabelece que as chamadas 'devoluciones em caliente' (retorno imediato de migrantes sem procedimento administrativo de expulsão) não podem ser aplicadas às chegadas por mar, apenas àquelas em que se salta a cerca.
Em Castillejos, cidade marroquina muito próxima a Ceuta, Abdelhakim contou à AFP ter caminhado 14 km pelas montanhas para chegar ao território espanhol, mas não conseguiu entrar.
"Disseram para passarmos pelo mar. Mas eu me vi completamente submerso e vi dois jovens (...) morrerem diante dos meus olhos", disse. "Então voltei atrás e me lembrei que tenho dois filhos".
O episódio remete a maio de 2021, quando mais de 10 mil pessoas cruzaram a fronteira em dois dias, aproveitando uma flexibilização dos controles por Rabat durante uma disputa diplomática com a Espanha.
Até o momento, as autoridades marroquinas não divulgaram nenhuma declaração oficial.
A crise ocorre após a visita de Sánchez à Argélia em 20 de julho, a primeira em quatro anos de um primeiro-ministro espanhol, depois de um período de tensões diplomáticas entre os dois países.
bur-mby/mig/hgs/dbh/fp/jc/mvv
K.Hill--AT