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A resistência e a vida dupla dos iranianos na Berlinale
Após a sangrenta repressão das manifestações no Irã e diante das ameaças de intervenção militar dos Estados Unidos, os filmes iranianos apresentados este ano na Berlinale ressoam com mais força do que em anos anteriores.
A repressão estatal é o fio condutor de "Roya", de Mahnaz Mohammadi, que explora o trauma de uma prisioneira política após sua passagem pela tristemente célebre prisão de Evin, em Teerã. A diretora sabe do que fala, já que esteve presa lá.
A sequência inicial é arrepiante. Filmada do ponto de vista de Roya, revela o tratamento degradante infligido pelos carcereiros.
Resistir à ideologia oficial faz de você um "inimigo" aos olhos das autoridades iranianas, explica Mohammadi à AFP.
Com seu filme, ela deseja mostrar como essa opressão deixa marcas nas vítimas. "Não fica no passado, muda sua vida e a sua percepção, muda tudo", insiste.
Como o nome Roya, que pode significar "sonho", muitas cenas de alucinações marcam o ritmo das imagens, ilustrando o descompasso psíquico e o trauma sofrido.
- Cápsula do tempo -
Em seu curta-metragem documental "Fruits of Despair (Frutos do desespero, em tradução livre), Nima Nassaj relata sua experiência durante a guerra dos 12 dias de junho de 2025 entre Israel e o Irã.
Como muitos habitantes de Teerã, ele encontrou refúgio com sua família em um vilarejo próximo à capital.
O filme é uma "cápsula do tempo" desses doze dias e de seu estado de espírito no período, que descreve como "devastado".
Assim como a protagonista de "Roya", as personagens de seu filme permanecem em silêncio. Apenas uma narração acompanha o espectador.
O diretor conta que se sentiu "totalmente isolado" nestes dias, inclusive das pessoas ao seu redor. "Quando você se depara com o medo da morte, com esse grau de incerteza, é muito difícil se comunicar", explica.
A narração é interrompida por frases projetadas em vermelho intenso na tela. Uma delas diz: "Estamos presos aos jogos de uma quadrilha de loucos".
"A cada ano há mais coisas deste tipo no mundo", observa Nassaj, para quem seu filme reflete a impotência das pessoas comuns diante de "momentos de crise" em um mundo cada vez mais imprevisível.
- Querem liberdade -
“Cesarean Weekend” parece menos abertamente político. Apresenta-se como uma descrição “intensa, selvagem e filosófica” da sociedade iraniana contemporânea.
Para seu criador, Mohammad Shirvani, “há uma diferença entre os diretores que reagem diretamente à República Islâmica e cineastas como eu, que falam da vida dos iranianos”, explicou à AFP por meio de um tradutor.
Seu objetivo é escapar à tendência, nas salas ocidentais, de oferecer uma “imagem orientalizada e exótica do Irã”.
O filme começa com uma festa em uma casa perto do Mar Cáspio, com jovens que bebem, fumam, se beijam e dançam.
“Cada iraniano, ao longo dos 47 anos da República Islâmica, aprendeu a levar uma vida dupla”, acrescenta o cineasta. Seu filme mostra ao público a “o estilo underground da juventude iraniana” de classe média.
A geração de Shirvani, nascido em 1973 — anos antes da Revolução Islâmica de 1979 —, teve de “adaptar-se como pôde e contornar as limitações”.
“Mas esta jovem geração não as suporta, quer se libertar”, insiste. Escolher um ambiente isolado, próximo da natureza, é uma maneira de conquistar mais “liberdade e espaço”, destaca.
Segundo várias ONGs, milhares de pessoas, em sua maioria civis, morreram durante os recentes distúrbios.
“Este tipo de massacre é algo sem precedentes na história iraniana”, declarou a atriz Maryam Palizban, intérprete em “Roya”. “Este regime não deveria mais existir”, acrescentou.
Apesar dos riscos, a cineasta Mahnaz Mohammadi afirma estar decidida a retornar ao Irã. Ela quer viver o suficiente para ver os iranianos “felizes e em paz”.
W.Nelson--AT