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China: desequilíbrio e futuro
A China é frequentemente apresentada como a grande vencedora da globalização, mas 2025 revelou uma realidade mais nuanceada. Embora o produto interno bruto tenha crescido cerca de 5 %, esse avanço foi sustentado quase exclusivamente por exportações e capacidade industrial, enquanto o consumo interno e o investimento privado ficaram estagnados. A disparidade entre produção e procura doméstica transformou a segunda maior economia do mundo na mais desequilibrada: em novembro de 2025 o superavit comercial acumulado ultrapassava 1,08 bilhão de dólares; as vendas a retalho perderam ritmo mesmo com subsídios, e o investimento imobiliário recuou 15,9 %.
Segundo o instituto de investigação China Briefing, a economia terminou 2025 com "ímpeto moderado e desequilíbrios persistentes". A produção industrial e as exportações permitiram atingir a meta de crescimento, mas não promoveram uma recuperação ampla: o consumo continuou fraco e o investimento privado contraiu-se. Este modelo baseado na oferta foi suficiente para manter a economia a funcionar, mas "também evidencia os limites do modelo atual".
Essa leitura foi reforçada pela J.P. Morgan Private Bank, que no seu relatório 2026 Asia Outlook descreve a China como "fundamentalmente desequilibrada". O estudo prevê crescimento real de 4,3 % em 2026, mas admite que a dinâmica se apoia num "boom histórico das exportações" ao mesmo tempo que o mercado imobiliário colapsa e o investimento desaparece. A instituição sublinha que o consumo das famílias enfraqueceu devido a um mercado de trabalho frágil e ao crescimento lento dos rendimentos. A política oficial proclama a prioridade de "impulsionar a procura interna", mas as medidas concretas continuam modestas, e as autoridades mantêm o foco em capacidade industrial e autossuficiência tecnológica.
Recordes de superavit e desequilíbrio externo
O desequilíbrio não se limita ao consumo. Organizações como a Coalition for a Prosperous America alertam que o superavit comercial da China, de quase 1,2 trilhão de dólares em 2025, é o maior já registado por um único país. Essa "força distorcionária" resulta de uma política deliberada de desvalorização do renminbi, subsídios estatais e restrições ao crédito, que mantêm as exportações competitivas e reprimem o poder de compra das famílias. A prioridade dada às exportações cria dependência da reciclagem de excedentes nos mercados financeiros dos EUA, expondo Pequim a vulnerabilidades externas.
Analistas da Nomura e de outras instituições apontam que a China mantém o crescimento ao aprofundar a dívida pública e apoiar o setor estatal. A agricultura e a indústria manufatureira continuam a receber investimentos substanciais, enquanto reformas fiscais e de bem‑estar social – necessárias para estimular o consumo – ficam em segundo plano. O desequilíbrio também se traduz em deflação à porta da fábrica, que torna os produtos chineses mais baratos no exterior, mas reduz lucros e salários internamente.
O lado social: salários em queda e pessimismo
Apesar dos números macroeconómicos, muitos chineses sentem que vivem pior. Reportagens da Reuters em janeiro de 2025 relatam que, embora o país tenha atingido a meta de crescimento, as pessoas se queixam de padrões de vida em deterioração. Setores como o de veículos elétricos viram receitas caírem 16 %, levando a cortes de postos de trabalho. Jovens enfrentam um desemprego de 16 %, e a crise imobiliária anula o valor das poupanças familiares.
Os relatórios sublinham que, se os estímulos continuarem a privilegiar infraestruturas e indústria em detrimento das famílias, o consumo permanecerá frágil e a deflação persistirá. Para economistas como Eswar Prasad, professor em Cornell, Pequim precisa de reformar o sistema fiscal e de segurança social, resolver a crise imobiliária e aliviar as tensões geopolíticas para uma recuperação sustentável.
O debate público
Nas redes sociais, a afirmação de que a China é a economia mais desequilibrada do mundo gera polémica. Muitos comentários destacam a ironia de chamar "desequilíbrio" a um superavit comercial de centenas de milhares de milhões de dólares; alguns afirmam que o Brasil "bem gostaria" de ter tal desequilíbrio. Outros criticam analistas liberais por definirem excedentes como problemas e dizem que, há décadas, se anuncia o colapso chinês sem que ele se concretize. Por outro lado, há observadores que consideram o modelo insustentável, pois depende de crescimento ilimitado das exportações, propriedade estatal e crédito fácil.
Essa divisão revela que, embora o consenso académico concorde que a China enfrenta desequilíbrios graves, a opinião pública permanece cética em relação a previsões de ruptura iminente. Parte do público acredita que um elevado superavit e uma rede industrial robusta são sinais de força; outra parte vê nesses números a prova de um modelo exausto.
Desafios e perspetivas
No início de março de 2026, o governo estabeleceu uma meta de crescimento entre 4,5 % e 5 %, a mais baixa desde 1991. O relatório do primeiro‑ministro Li Qiang reconheceu um "agudo desequilíbrio" entre a forte oferta industrial e a fraca procura interna. Ele também anunciou um plano para emitir 250 mil milhões de yuanes em obrigações e financiar programas de troca de carros e eletrodomésticos, bem como medidas para estabilizar o mercado imobiliário.
A Associated Press observa que Pequim continua a favorecer autossuficiência tecnológica e expansão das indústrias avançadas, enquanto mantém a prioridade no fortalecimento do poder militar. Especialistas como Ecaterina Bigos, da AXA Investment Managers, afirmam que revigorar a procura interna é vital para um crescimento duradouro, mas advertem que mudar a economia para níveis mais elevados de consumo doméstico "levará tempo".
Relatórios de bancos como JP Morgan concordam: embora esperem crescimento moderado e apoio fiscal, o desequilíbrio estrutural persiste. A dependência de exportações e a fraca disposição das famílias para gastar sugerem que o modelo de crescimento baseado na oferta chegou ao limite. O banco identifica uma "dependência crescente do setor externo" e aponta que o mercado imobiliário e o investimento privado continuam a retrair-se.
Além disso, a JP Morgan prevê que as autoridades manterão um défice fiscal de cerca de 4 % do PIB e recorrerão a bancos públicos e dívida dos governos locais para sustentar a economia. O consumo continuará a ser o ponto fraco: o crescimento das vendas a retalho permanece limitado devido à desaceleração do mercado de trabalho e à perda de riqueza decorrente da crise habitacional.
Conclusão
A China continua a ser um gigante económico, mas enfrenta desafios que a tornam a economia mais desequilibrada do mundo. O sucesso industrial e a competitividade externa contrastam com um mercado interno enfraquecido, dívida elevada e uma crise imobiliária que mina a confiança dos consumidores. Comentários públicos revelam tanto ceticismo como preocupação em relação ao futuro, enquanto analistas insistem que o reequilíbrio é inevitável.
Para superar essa condição, Pequim terá de redefinir prioridades: fortalecer a rede de proteção social, incentivar o consumo das famílias, permitir uma valorização gradual da moeda e reduzir subsídios que fomentam a superprodução. Sem essas mudanças, o desequilíbrio estrutural poderá manter a economia a crescer, mas com benefícios cada vez mais concentrados e riscos acumulados.
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