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Milei em xeque, mercados caem
A Argentina atravessa uma semana de forte turbulência após uma derrota expressiva do governo na província de Buenos Aires. O choque político derrubou ações, pressionou o peso ao teto da banda cambial e ampliou as perdas dos títulos soberanos, reabrindo dúvidas sobre a capacidade de Javier Milei de sustentar sua agenda de ajuste às vésperas das eleições legislativas de outubro.
No início da semana, o S&P Merval afundou perto de 13% em um único pregão, enquanto papéis argentinos negociados no exterior sofreram quedas de dois dígitos. A moeda oscilou entre 1.41 mil e 1.47 mil pesos por dólar, encostando no limite superior do regime de bandas e intensificando as especulações sobre a necessidade de intervenção do Banco Central (BCRA). Paralelamente, os rendimentos dos bônus em dólar dispararam, refletindo a piora da percepção de risco.
Por que a reação foi tão violenta
A derrota em um reduto que concentra quase 40% do eleitorado foi lida pelo mercado como um sinal de enfraquecimento político. Investidores temem que uma correlação de forças mais adversa no Congresso dificulte a aprovação de medidas estruturais — de consolidação fiscal à desregulamentação — vistas como pilares do programa econômico.
O que fez (e disse) o governo
O ministro da Economia, Luis Caputo, afirmou que o governo manteve a âncora fiscal e não vendeu dólares no início da turbulência. Ainda assim, o BCRA cortou em 10 pontos percentuais a taxa de “pases” e, diante da volatilidade, comunicou ao Fundo Monetário Internacional que atuaria no câmbio de forma temporária para suavizar os movimentos. Milei assegurou que não mudará “um milímetro” do plano liberal, apostando que a estabilização fiscal e monetária se imporá com o tempo.
Sinais mistos no quadro macro
Apesar da pancada nos ativos, há indicadores que o governo exibe como avanços. A inflação mensal ficou em 1,9% em agosto — quarto mês seguido abaixo de 2% — e um leilão de dívida local nesta semana conseguiu rolar praticamente todas as maturidades próximas, oferecendo algum alívio de curto prazo. Em contrapartida, o desemprego alcançou 7,9% no primeiro trimestre, e casas de investimento que estavam otimistas reviram rapidamente suas recomendações após o choque político.
O que vem pela frente
O regime de banda cambial — que se amplia em 1% ao mês — tende a manter a taxa de câmbio sob vigilância permanente. Intervenções no mercado de câmbio, mesmo autorizadas pelo FMI, exigem reservas robustas; em junho, o BCRA reforçou o colchão com um acordo de recompra (repo) de até US$ 2 bilhões. O risco central é um círculo vicioso entre incerteza política e estresse financeiro: quanto mais difícil a governabilidade, maior a chance de volatilidade no câmbio e nos juros, o que por sua vez agrava a economia real e erode apoio político.
O que monitorar nos próximos dias
- Trajetória do peso dentro da banda e eventuais atuações do BCRA.
- Dinâmica das reservas internacionais e das taxas de juros locais.
- Capacidade de rolagem da dívida em pesos.
- Leitura do próximo IPC e difusão da desaceleração inflacionária.
- Termômetro político: alianças, sinalizações do governo e pesquisas rumo a outubro.
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