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'Como andar de bicicleta', diz indicado ao Oscar Ethan Hawke sobre magia de 'Blue Moon'
É difícil reconhecer Ethan Hawke em "Blue Moon": um homem de baixa estatura, calvo e que parece desconfortável em sua própria pele, uma caracterização que destoa do jovem galã que conquistou o público em 1989, no drama "Sociedade dos Poetas Mortos", e, pouco depois, no filme cult "Caindo na Real".
Mas sua interpretação do lendário letrista Lorenz Hart, um alcoólatra que bebeu até abandonar uma das duplas de composição mais famosas dos Estados Unidos, é uma demonstração de talento que rendeu-lhe uma indicação ao Oscar de Melhor Ator, aos 55 anos.
A obra, repleta de diálogos, é fruto da colaboração de décadas de Hawke com o diretor Richard Linklater, iniciada há mais de 30 anos com "Antes do Amanhecer", de 1995.
"A magia da relação é que é um pouco como andar de bicicleta; você simplesmente não pensa nisso", disse o ator à AFP.
"Ele me enviou esse roteiro e nós dois sentimos que era um dos textos mais intensos que já vimos. E queríamos compartilhá-lo com o mundo", acrescentou.
"Blue Moon" se desenrola quase completamente no bar de um restaurante da Broadway onde Hart se refugia durante a estreia de "Oklahoma!", o primeiro grande espetáculo de seu colaborador de longa data, Richard Rodgers, criado em parceria com Oscar Hammerstein.
O roteiro denso e literário de Robert Kaplow é dominado por Hawke, que contou a um jornalista que teve mais falas nos primeiros 30 minutos de tela do que em todos os seus quatro últimos filmes juntos.
Apesar de alguns truques de câmera e efeitos digitais, conseguir o físico de um homem baixo, calvo e pouco atraente foi o maior desafio para o ator, que dedicou uma década de trabalho ao papel desde que leu o roteiro pela primeira vez, em 2014.
"Não achei que precisaria envelhecer para isso, mas o Rick (Linklater) achou", disse Hawke à publicação especializada The Wrap.
"Rick sabia que o tempo só ia jogar a meu favor. E, curiosamente, não se trata apenas de envelhecer, não é só o rosto que enruga e cai. Eu achava que estava pronto quando tinha 40 anos, mas não estava. Fui me interessando cada vez mais pelo que se chama de atuação de personagem. E este papel exigia tudo isso, tudo o que aprendi nesses trinta e tantos anos", afirmou.
- "Misteriosa" -
Hawke atribui sua longa colaboração com Linklater (com quem trabalha em seu décimo projeto) ao espaço dado para se livrar de qualquer vestígio de vaidade e se transformar no letrista excêntrico.
Ao longo de 100 minutos, Hart recorda como ruiu sua colaboração com Rodgers (um frio Andrew Scott), uma dupla criativa que deu ao mundo sucessos como "My Funny Valentine", "The Lady is a Tramp" e a própria "Blue Moon".
Como um homossexual que não esconde sua orientação sexual, também aborda com lirismo sua fascinação por uma jovem estudante de Yale, interpretada por uma platinada Margaret Qualley, e suas rodadas de drinques com E.B. White (Patrick Kennedy), autor do livro infantil "A teia de Charlotte".
Conhecido por suas anedotas e respostas afiadas, Hart vai mostrando que, no fundo, está absolutamente sozinho. "Ninguém nunca me amou desse jeito", diz, evocando Rick Blaine (interpretado por Humphrey Bogart) de "Casablanca".
A atuação rendeu a quinta indicação de Hawke ao Oscar, depois de ter concorrido a Melhor Ator Coadjuvante por "Dia de Treinamento" e "Boyhood: Da Infância à Juventude", e de outras duas a Melhor Roteiro Adaptado por "Antes da Meia-Noite" e "Antes do Pôr do Sol".
Ele a considera o resultado de uma experiência definida como "misteriosa" em "Blue Moon". "Não sei como posso ter tanta sorte. Realmente não entendo como o universo funciona", disse à AFP sobre seu trabalho com Linklater.
"Tem sido uma das colaborações mais empolgantes da minha vida", completou.
A 98ª cerimônia do Oscar será celebrada em 15 de março, em Hollywood.
A.Taylor--AT