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Há 50 anos, 'fiasco total' marcou a entrega do Nobel da Paz
Um vencedor que recusou o prêmio, outro que não viajou por medo de protestos, dois membros do comitê que renunciaram: o Nobel da Paz atribuído há 50 anos ao americano Henry Kissinger e ao vietnamita Le Duc Tho continua sendo um dos mais polêmicos.
"Um fiasco total. Foi o pior prêmio em toda a história do Nobel da Paz", afirmou Asle Sveen, historiador norueguês especialista no prêmio Nobel.
Em 16 de outubro de 1973, o Comitê Norueguês do Nobel anunciou que o prêmio foi concedido em conjunto ao conselheiro de segurança nacional dos Estados Unidos, que no mês anterior havia sido promovido a secretário de Estado, e ao membro do politburo norte-vietnamita "por terem negociado conjuntamente um cessar-fogo no Vietnã em 1973".
Em 27 de janeiro deste ano, ambos firmaram o Acordo de Paz de Paris, que estabeleceu o armistício no Vietnã e a retirada das tropas americanas, pressionadas por um forte movimento contra a guerra.
"Não era um acordo de paz, mas sim uma trégua que se rompeu rapidamente", disse Sveen à AFP.
A decisão imediatamente gerou polêmica e foi sucedida pela renúncia de dois dos cinco membros do comitê, algo sem precedentes.
Nos Estados Unidos, o jornal The New York Times chegou a publicar um editorial sobre o "Prêmio Nobel da Guerra", enquanto professores da Universidade de Harvard escreveram ao Parlamento norueguês criticando uma nomeação que foi "mais do que uma pessoa com senso normal de justiça pode suportar". O cantor americano Tom Lehrer também ironizou o ato, considerando que "a sátira política se tornou obsoleta".
Hoje centenário, Kissinger é acusado de provocar a propagação das guerras do Vietnã e Camboja, e de ordenar os bombardeios maciços sobre Hanói para pressionar as negociações.
O então funcionário de alto escalão dos EUA também apoiou o golpe de Estado do general Augusto Pinochet contra o presidente democraticamente eleito Salvador Allende, no Chile.
Menos conhecido, Le Duc Tho também se apresentava como uma figura rígida e organizou a invasão do Vietnã do Sul dois anos mais tarde. Ele foi o primeiro — e até então o único — a rejeitar um Nobel da Paz.
"Quando o Acordo de Paris sobre o Vietnã for respeitado, as armas forem silenciadas e a paz for verdadeiramente restaurada no Vietnã do Sul, considerarei aceitar o prêmio", disse ele em um telegrama.
Temendo ser recebido com protestos, Kissinger convocou uma reunião da Otan para receber o prêmio em Oslo. Após a queda de Ho Chi Minh para as tropas do Vietnã do Norte em 1975, tentou devolver o prêmio ao comitê, que o rejeitou.
De acordo com Olav Njølstad, atual diretor da premiação, os documentos desclassificados após cinco décadas de confidencialidade sugerem que o comitê esperava dar um impulso ao Acordo de Paris para promover uma paz duradoura. Também considerava que a restauração da paz no Vietnã teria reduzido as tensões entre Ocidente e Oriente e colocado fim à Guerra Fria.
No entanto, em uma conversa com a AFP, Olav Njølstad reconheceu dias atrás que foi um erro.
"Tendo a pensar que foi uma má decisão. Em geral, não é uma boa ideia conceder prêmios a pessoas que lideraram uma guerra", disse o diretor.
H.Gonzales--AT