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Brasil e Argentina enfrentam crise diplomática após 'ofensas' de Milei
Uma crise diplomática entre o Brasil e a Argentina escalou depois que Brasília chamou para consultas, neste domingo (26), seu embaixador em Buenos Aires pelas "ofensas" na véspera do presidente argentino, Javier Milei, contra seu homólogo, Luiz Inácio Lula da Silva, e outras autoridades brasileiras durante a convenção do Partido Liberal (PL), em São Paulo.
Depois desta medida, que costuma ser tomada frente a problemas bilaterais com outro Estado, o ultraliberal Milei dobrou a aposta e acusou o "governo do Brasil" de ter financiado uma suposta "campanha anti-argentina", em apresentar provas.
Sem mencioná-los diretamente, o ultraliberal Milei se referiu ao presidente Lula como "presidiário" e "ladrão" e ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes como "lixo careca", durante o ato no sábado, no qual foi oficializada a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como candidato às eleições presidenciais de outubro.
"O embaixador do Brasil em Buenos Aires, Julio Bitelli, foi chamado para consultas (...) em razão das ofensas proferidas pelo presidente argentino", disse à AFP um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores brasileiro.
Milei "ofendeu dois Poderes, o povo e a democracia brasileiras", disse à AFP uma fonte da diplomacia brasileira.
Figura da direita latino-americana, Milei advertiu no evento, ao lado de seu aliado, Flávio Bolsonaro, para "o risco Lula" nas eleições e pediu para o Brasil sair de "sua submissão ao esquerdista".
Depois do chamado a consultas do embaixador brasileiro, Milei voltou a se referir ao Brasil, país vizinho e parceiro estratégico da Argentina.
"Quem pôs mais dinheiro nesta campanha anti-argentina... O governo do Brasil. Vinte e cinco por cento dos recursos saíram do governo do Brasil", afirmou Milei à rádio local Mitre, em uma aparente alusão às criticas contra seu país nas redes sociais durante a Copa do Mundo de futebol.
Milei assegurou que a "campanha" também foi "financiada" por outras "cabeças progressistas" do México e do Partido Democrata dos Estados Unidos.
"E depois vêm me falar de interferência", disse o presidente argentino, que sustentou que "um grupo de brasileiros mandado por Lula (...) jogaram (sic) ativamente" contra ele durante a campanha que o levou à Presidência em 2023.
Lula disse, neste domingo, em um ato com sindicalistas, que continuará governando "sem ingerência de ninguém" porque "aqui no Brasil a gente não aceita que ninguém meta o nariz onde não é chamado". O presidente não entrou em detalhes.
Desde 2025, o presidente Lula mantém uma relação com altos e baixos com o governo de seu par americano, Donald Trump, aliado da família Bolsonaro e de Milei.
Washington impôs tarifas e sanções contra o Brasil, interpretados pelo governo brasileiro como tentativas de interferência política.
- "Lixo careca" -
Sem nomear o ministro Alexandre de Moraes, Milei também disse no sábado que o "lixo careca" o impediu de visitar seu "amigo preso injustamente" Jair Bolsonaro, pai de Flávio e ex-presidente (2019-2022), preso por tentativa de golpe de Estado em 2022.
Considerado inimigo do bolsonarismo, Moraes tinha negado a Milei permissão para visitar Bolsonaro em sua prisão domiciliar em Brasília.
As declarações de Milei também provocaram o repúdio do presidente do STF, ministro Edson Fachin, que criticou, em nota, sua "referência desrespeitosa" a Moraes e condenou suas "manifestações incompatíveis com a civilidade que deve caracterizar as relações entre os Estados".
Edinho Silva, presidente do Partido dos Trabalhadores (PT), de Lula, disse, por sua vez, que o mandatário argentino mostrou não estar à altura do cargo que ocupa.
Lula tem uma relação fria com Milei desde que este assumiu, em 2023, a Presidência da Argentina.
Embora os dois tenham se cruzado em eventos multilaterais, eles nunca tiveram uma reunião bilateral.
Em sua última viagem à Argentina, em 2025, Lula visitou a ex-presidente e atual opositora Cristina Fernández de Kirchner, em prisão domiciliar por corrupção.
F.Ramirez--AT