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EUA adverte Nicarágua sobre planos de eliminar eleições
Os Estados Unidos advertiram, nesta terça-feira (21), que não ficarão "de braços cruzados" após o anúncio do presidente Daniel Ortega de que a Nicarágua não terá mais eleições, o que faz temer um avanço em direção a um modelo de partido único.
Ortega, um ex-guerrilheiro de esquerda no poder há quase duas décadas, fez o anúncio no domingo, em um momento em que grupos opositores no exílio se mostravam esperançosos de que a pressão dos Estados Unidos e de outros países levasse a uma transição ou a eleições livres.
A Assembleia Nacional nicaraguense informou nesta terça-feira que iniciou a "análise" de reformas para cumprir as "orientações presidenciais".
O presidente Donald Trump e a comunidade internacional "não ficarão de braços cruzados enquanto a ditadura (...) aprofunda a repressão e fabrica instabilidade que ameaça a segurança nacional" dos Estados Unidos, advertiu o secretário de Estado, Marco Rubio, no X.
"Abolir" as eleições "demonstra sua covardia e medo da vontade do povo nicaraguense", acrescentou.
Ortega e sua esposa, Rosario Murillo, governam com poder absoluto e aniquilaram a oposição interna após os grandes protestos de 2018, que deixaram cerca de 300 mortos e são considerados por eles uma tentativa de golpe de Estado patrocinado pelos Estados Unidos.
Washington aplica sanções ao governo nicaraguense, como a restrição de vistos a mais de 2.350 funcionários e seus familiares, mas tem evitado ir tão longe quanto em Cuba, submetida a uma forte pressão que deixou sua economia à beira do colapso.
Após uma reforma constitucional aprovada no fim de 2024, que ampliou o mandato presidencial de cinco para seis anos e elevou o status de Murillo a copresidente, a Nicarágua deveria realizar eleições gerais em 2027.
Mas Ortega, de 80 anos, disse no domingo, no 47º aniversário da revolução sandinista, que "na Nicarágua não haverá mais eleições" nas quais "partidos colocados pelos ianques (Estados Unidos)" possam chegar ao poder.
Seu anúncio também foi rejeitado pelo secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Albert Ramdin, que afirmou que "o regime abandonou a democracia", e pelo governo da Costa Rica, que chamou seu embaixador em Manágua para consultas.
- Partido único -
Nas últimas eleições, realizadas em novembro de 2021, após a prisão de opositores com possibilidade de disputar a presidência, Ortega venceu com ampla margem pela Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), ex-guerrilha que em 1979 derrubou o ditador Anastasio Somoza.
Com a reforma constitucional, a Nicarágua foi definida como um Estado "revolucionário" e "socialista", e a bandeira vermelha e preta do FSLN foi elevada à condição de símbolo pátrio.
Líderes da oposição consultados pela AFP concordam que o anúncio de Ortega esconde o temor de perder em uma eleição competitiva, motivo pelo qual ele decidiu avançar rumo a um regime como o de Cuba, onde o Partido Comunista é o único reconhecido legalmente e os candidatos são indicados por assembleias de bairro ou organizações civis alinhadas ao governo.
Ativistas opositores, intelectuais, jornalistas e religiosos partiram para o exílio - muitos após passarem pela prisão. Cerca de 450 foram privados de sua nacionalidade e de seus bens. Há duas semanas, o governo revogou as licenças de trabalho de cerca de 2 mil advogados, segundo meios de comunicação nicaraguenses no exílio.
Opositores afirmam que Murillo realiza um expurgo interno, mantendo cerca de 200 correligionários na prisão, diante de um eventual falecimento de Ortega, que sofre de lúpus e insuficiência renal.
A.Moore--AT