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Acordo de paz na Colômbia também deve proteger as florestas, diz ex-presidente
O histórico acordo de paz de 2016 na Colômbia também busca proteger as florestas e, desta forma, lutar contra as mudanças climáticas, disse à AFP seu artífice, o ex-presidente Juan Manuel Santos, à margem de uma conferência em Santa Marta para avançar rumo às energias limpas.
Calçando slippers que ganhou de presente da esposa, com um dos pés bordado com o símbolo da paz e o outro com uma folha de maconha para "conciliar" paz e natureza, Santos, de 74 anos, participa da Primeira Conferência Internacional sobre a Transição para além dos Combustíveis Fósseis, que até a próxima quarta-feira reúne representantes de cerca de 60 países nesta cidade caribenha.
Ganhador do prêmio Nobel da Paz pelo acordo que desarmou a guerrilha das Farc, Santos advertiu também para o "retorno" da violência em seu país, palco há mais de seis décadas de um conflito entre forças do Estado, guerrilhas e narcotraficantes, que deixou mais de um milhão de mortos e nove milhões de deslocados.
Confira a seguir trechos da entrevista editados para uma melhor compreensão:
Pergunta: Quais resultados espera da conferência de Santa Marta para abordar a saída do petróleo, do carvão e do gás, os maiores contaminantes do planeta?
Resposta: "Tomara que possamos fazer uma transição mais rápida e mais justa para as energias renováveis. Os que foram convidados aqui já estão convencidos disso e o propósito é que saia uma ação mais concreta para estimular os países (a sair dos combustíveis fósseis)".
P: Muitos países presentes têm grandes paradoxos climáticos, como a Colômbia, grande produtor de carvão, ou o Brasil, que anunciou que quer explorar petróleo com o México em águas profundas no Golfo do México. É possível avançar na transição assim?
R: "São paradoxos que obviamente não contribuem para o bom propósito. Inclusive o presidente (colombiano Gustavo) Petro recentemente baixou o preço da gasolina, ou seja, aumentou os subsídios para a gasolina e um dos propósitos desta conferência é precisamente abolir estes [subsídios] para a gasolina, o diesel e os combustíveis fósseis. Os líderes têm que tomar as decisões em função do curto prazo, de seus interesses eleitorais. Liderança de longo prazo, mesmo que muitas decisões sejam impopulares, é do que o mundo precisa".
- "A violência está voltando" -
P: Como ganhador do Nobel da Paz, como a destruição da natureza afeta a paz no mundo?
R: "Está muito vinculado. Os indígenas me disseram, especialmente os Kogui da Serra Nevada, muito perto de onde estamos (em Santa Marta). Quando fui dizer-lhes, 'Já fizemos a paz com a guerrilha mais antiga e poderosa do hemisfério ocidental e agora vamos fazer a paz com a natureza', me disseram, 'Sim, mas faça de verdade porque a paz com a natureza é necessária para a paz entre os seres humanos'. E estamos sofrendo isso. Os efeitos das mudanças climáticas estão incentivando conflitos armados no mundo inteiro".
P: Na Colômbia, o desmatamento disparou justamente após a entrada em vigor do acordo de paz. Ao que se deveu?
R: "Porque não foi implementado devidamente, que tinha entre seus objetivos, e ainda tem, controlar o território com as comunidades para evitar o crime organizado, que é, talvez, o motivo principal para o desmatamento. Este, não apenas na Colômbia, também no Brasil, no Equador, no Peru, em todos os países amazônicos, é incentivada principalmente pelo crime organizado. Usam a pecuária e o garimpo ilegal como fontes de financiamento e isso fomenta o desmatamento".
P: Um novo acordo de paz deveria incluir medidas contra o desmatamento?
R: "Sem dúvida alguma. Mas o que acontece é que estão sendo feitos acordos de paz sem um planejamento adequado, com grupos que não têm nenhum objetivo político. Então, se há um verdadeiro tratamento adequado para eliminar os cartéis da droga e da máfia, obviamente que o objetivo do desmatamento deve ser um dos principais".
P: A um mês das eleições presidenciais, a Colômbia registrou no fim de semana o pior atentado contra civis das últimas três décadas, com dezenas de mortos. Teme uma volta da violência no país?
R: "Estamos vendo que a violência está voltando em muitas regiões pela falta de implementação do acordo de paz, a falta de uma política de segurança coerente, e as quadrilhas de criminosos estão se aproveitando dessa situação, inclusive as disputas entre elas. Isso tem gerado muita violência".
Th.Gonzalez--AT