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Paquistão bombardeia Cabul após declarar 'guerra aberta' contra o governo talibã do Afeganistão
O Paquistão bombardeou nesta sexta-feira (27) várias cidades do Afeganistão, incluindo a capital Cabul, e declarou "guerra aberta" ao país vizinho, em um agravamento da crise após vários dias de confrontos.
"Nossa paciência chegou ao limite. A partir de agora, é uma guerra aberta entre nós e vocês", afirmou o ministro da Defesa paquistanês, Khawaja Asif, na rede social X.
Pouco antes, jornalistas da AFP ouviram explosões e viram caças sobrevoando Cabul e Kandahar, uma grande cidade do sul do Afeganistão, país governado pelos talibãs desde que retornaram ao poder em 2021.
As relações historicamente cordiais entre os países vizinhos sofreram um abalo nos últimos meses, com enfrentamentos esporádicos.
O Paquistão, uma potência nuclear, acusa as autoridades talibãs de oferecerem cobertura a militantes armados que lançam ataques contra seu território, o que o governo do Afeganistão nega.
Perto da importante passagem fronteiriça de Torkham, um jornalista da AFP observou disparos de artilharia a partir das 9h30 (2h00 de Brasília) de sexta-feira.
Os combates alcançaram o campo de Omari, que abriga os repatriados afegãos perto do posto fronteiriço.
"As crianças, as mulheres e os idosos correram", disse Gander Khan, um repatriado de 65 anos, em pé diante de várias tendas.
"Vi sangue, (os tiros) feriram duas ou três crianças e duas ou três mulheres", declarou à AFP.
Zarghon, um repatriado de 44 anos que revelou apenas o primeiro nome, afirmou que duas ou três crianças desapareceram em meio ao pânico.
- "Todos foram embora" -
"Alguns deixaram seus documentos (...) Não levaram nem o dinheiro, nem a ajuda que tinham recebido. Por medo, todos foram embora", contou à AFP.
Na noite de quinta‑feira, as forças afegãs lançaram uma ofensiva na fronteira contra as tropas paquistanesas em resposta, segundo Cabul, aos bombardeios paquistaneses do fim de semana passado.
O ministro do Interior do Paquistão, Mohsin Naqvi, afirmou que os ataques de sexta‑feira e outros recentes na província de Paktia são uma "resposta adequada" às ações do país vizinho.
O governo do Afeganistão confirmou os ataques aéreos. Seu porta‑voz, Zabihullah Mujahid, que horas antes havia anunciado a retomada de "operações ofensivas em larga escala" na fronteira, afirmou que não houve vítimas.
Em pleno Ramadã, as ruas de Cabul estavam tranquilas depois do amanhecer, sem uma grande presença das forças de segurança, nem postos de controle, segundo os repórteres da AFP.
Preocupados, Irã e China se apresentaram como possíveis mediadores do conflito.
O governo do Irã, que compartilha uma fronteira ao leste com Afeganistão e Paquistão - e está, por sua vez, envolvido em negociações para evitar um conflito com os Estados Unidos -, se ofereceu para "facilitar o diálogo".
As autoridades chinesas pediram às partes que mantenham a calma e atuem com moderação, para "alcançar um cessar‑fogo o mais rápido possível e evitar mais derramamento de sangue".
- Relações muito tensas -
Desde quinta-feira, os dois países apresentam versões contraditórias sobre a situação.
O porta-voz afegão Mujahid afirmou que "dezenas de soldados paquistaneses morreram", "vários também ficaram feridos e outros foram tomados como prisioneiros", e mais de 15 postos avançados do Paquistão caíram.
O primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, desmentiu a versão afegã: "Nenhum posto paquistanês foi tomado ou danificado", enquanto os paquistaneses infligiram "graves perdas" aos afegãos.
O bombardeio das forças afegãs ocorreu após vários ataques aéreos paquistaneses no fim de semana passado nas províncias de Nangarhar e Paktia, após "recentes atentados suicidas" no Paquistão.
As relações entre os dois vizinhos pioraram consideravelmente nos últimos meses. A fronteira terrestre permanece em grande parte fechada, exceto para os afegãos que retornam ao seu país, desde os combates de outubro, que deixaram mais de 70 mortos dos dois lados.
Após um cessar-fogo inicial negociado pelo Catar e pela Turquia, várias rodadas de conversações foram organizadas, mas um acordo duradouro não foi alcançado.
O EI Khorasan, considerado um dos braços mais ativos da organização Estado Islâmico, opera nos dois países.
Quando retornou ao poder no Afeganistão, o movimento talibã impôs uma interpretação rigorosa da lei islâmica, o que priva as mulheres e as meninas do direito à educação e ao mercado de trabalho.
burs-je/hmn/arm-erl/dbh/fp
E.Hall--AT