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Governo Trump provoca 'erosão democrática' na América Latina, alerta ONG
A ONG Human Rights Watch (HRW) denunciou nesta quarta-feira (4) "a execução extrajudicial de 120 latino-americanos" no Caribe por ataques dos Estados Unidos e afirmou que o retorno de Donald Trump à Casa Branca incentivou vários governos da América Latina a cometer abusos.
Juanita Goebertus, diretora para as Américas da HRW, advertiu que às "graves violações de direitos humanos" identificadas "há décadas" em países como Cuba, Nicarágua e Venezuela somam-se agora os abusos cometidos por Washington na região, além da retenção de estrangeiros deportados pelos Estados Unidos em El Salvador, Panamá e Costa Rica.
"A execução extrajudicial de 120 latino-americanos em águas do Caribe e do Pacífico", durante ataques americanos contra embarcações supostamente utilizadas para o tráfico de drogas, é uma das ações do governo Trump que agravaram a situação dos direitos humanos na região, afirmou Goebertus em entrevista coletiva.
Essas mortes ocorreram no contexto do deslocamento naval mantido por Washington no Caribe, onde atacou barcos supostamente ligados ao narcotráfico, e que levou ao poderoso operativo militar para capturar o presidente deposto da Venezuela, Nicolás Maduro, em 3 de janeiro.
Em seu relatório anual, apresentado na Cidade do México, a HRW menciona também que El Salvador manteve presos 252 venezuelanos deportados dos Estados Unidos no Centro de Confinamento do Terrorismo (Cecot).
Nessa megaprisão inaugurada em 2023 pelo presidente Nayib Bukele, a HRW conseguiu "documentar que (os deportados) sofreram torturas sistemáticas", acrescentou Goebertus em entrevista telefônica à AFP.
A advogada lamentou que países "que historicamente têm sido muito comprometidos com a defesa dos direitos humanos, como Panamá e Costa Rica", tenham retido estrangeiros deportados pelos Estados Unidos "sem qualquer justificativa".
"O governo dos Estados Unidos teve uma influência indiscutivelmente negativa" na região, cujo balanço frente às políticas migratórias do republicano "é muito lamentável", afirmou.
O corte promovido por Trump na ajuda internacional de Washington, por meio da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), teve um impacto "extremamente grave" na América Latina e no Caribe, denunciou Goebertus.
— "Tortura" e "desaparecimento forçado" —
Os reflexos dessa política também alcançam países como Equador e Peru, que, assim como El Salvador, aprovaram leis "para o fechamento arbitrário de organizações" de direitos humanos, aproveitando-se do "enfraquecimento" das ONGs.
A HRW destaca que, com resultados distintos, governos latino-americanos que adotaram políticas de mão dura contra a criminalidade registraram um aumento nas violações de direitos humanos.
O relatório sustenta que a administração Bukele cometeu "prisões arbitrárias e em massa", "tortura" e "desaparecimento forçado" para alcançar uma redução significativa da violência ligada às gangues.
O Equador, por sua vez, encerrou 2025 com uma taxa recorde de homicídios de 52 assassinatos por cada 100 mil habitantes, enquanto suas forças de segurança incorreram em "execuções extrajudiciais" e "desaparecimentos forçados", segundo a HRW.
No caso do México, Goebertus pediu atenção especial à "erosão do sistema de pesos e contrapesos" entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, provocada pela reforma constitucional que instituiu a eleição popular de juízes.
Essa reforma transformou "os juízes em atores sujeitos a maiorias políticas e pressões eleitorais", acrescentou a cientista política Denise Dresser durante a coletiva.
Lisa Sánchez, especialista em segurança e política de drogas, afirmou que a "militarização" da segurança pública não apenas aumenta os riscos de violações das garantias fundamentais, como também não freou a corrupção no México.
"As Forças Armadas estão participando igualmente de esquemas de corrupção", disse Sánchez, em referência às investigações por contrabando de combustível contra integrantes da Secretaria da Marinha em 2025.
O relatório da HRW reconhece a redução da pobreza no México, mas ressalta que "comer melhor não compensa viver sem justiça", sublinhou Dresser.
J.Gomez--AT