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Zelensky acusa Trump de viver em 'espaço de desinformação' russa
O presidente ucraniano, Volodimir Zelensky, afirmou, nesta quarta-feira (19), que Donald Trump vive em um "espaço de desinformação" por parte da Rússia, em resposta aos ataques do mandatário americano, que estão em linha com a retórica do Kremlin, em um contexto de aproximação entre Washington e Moscou.
Este confronto verbal ocorre no dia em que o enviado do presidente americano para a Ucrânia, Keith Kellogg, chegou a Kiev com a intenção de "ouvir suas preocupações".
Também aumenta os temores de um rompimento entre Kiev e Washington em um momento em que os EUA iniciaram conversas diretas com a Rússia, após a reunião de terça-feira, na Arábia Saudita, dos ministros das Relações Exteriores das duas potências pela primeira vez desde o início da guerra na Ucrânia, há três anos.
Marco Rubio e Serguei Lavrov concordaram em nomear equipes para negociar o fim da guerra na Ucrânia, sem convidar Kiev ou os europeus, que temem um acordo contra seus interesses.
"Infelizmente, o presidente Trump, por quem temos grande respeito como líder do povo americano... vive nesse espaço de desinformação", disse Zelensky em uma coletiva de imprensa em Kiev, afirmando que tal desinformação "vem da Rússia".
Também acusou o governo americano de ajudar o presidente russo, Vladimir Putin, a "sair de anos de isolamento".
Na terça-feira, Trump lançou um ataque verbal sem precedentes contra o presidente ucraniano, questionando sua legitimidade e seu desejo de encontrar uma solução para o conflito. Também pareceu considerá-lo responsável pela invasão de seu país pela Rússia, ecoando a retórica do Kremlin.
O chanceler russo, Serguei Lavrov, elogiou Trump nesta quarta-feira por "dizer em alto e bom som" que foi o desejo de integrar a Ucrânia à Otan que desencadeou a guerra, o argumento usado por Moscou para justificar a ofensiva em seu país vizinho.
O presidente americano também acusou Zelensky de ser impopular, criticou a ausência de eleições em seu país devastado pela guerra e afirmou que parte da ajuda dos EUA havia sido desviada.
- Ucrânia "não está à venda" -
Zelensky conta com 57% de aprovação dos ucranianos, segundo uma pesquisa publicada nesta quarta-feira, realizada no início de fevereiro pelo Instituto Internacional de Sociologia de Kiev, um número superior ao da última realizada em dezembro de 2024 (52%).
Segundo Trump, o índice de confiança de seu contraparte ucraniano caiu 4%.
Embora o mandato de Zelensky devesse ter expirado em maio de 2024, a Ucrânia não realizou eleições em um contexto de lei marcial. Milhões de ucranianos fugiram para o exterior, 20% do território está sob ocupação russa, o país está isolado por uma linha de frente de mais de 1.000 quilômetros e as cidades são bombardeadas diariamente.
Trump afirmou que Washington "deu US$ 350 bilhões" (R$ 1,9 trilhão na cotação atual) para a Ucrânia e acusou o mandatário ucraniano de não saber "onde estava metade do dinheiro", mas o Kiel Institute for the World Economy coloca a ajuda dos EUA em US$ 114,2 bilhões (R$ 650,6 bilhões) desde 2022.
Até o momento, nenhum dos aliados de Kiev havia acusado a Ucrânia de apropriação indevida maciça de fundos ocidentais, e o presidente americano não conseguiu provar suas alegações.
A tarefa de esclarecer a posição de Washington agora cabe à Keith Kellogg, que chegou à Ucrânia na quarta-feira, pouco depois de Odessa, uma importante cidade portuária no sul do país, ter sido alvo de um intenso bombardeio russo que deixou cerca de 160.000 moradores sem eletricidade e aquecimento no auge do inverno.
O enviado americano adotou um tom conciliador. "Entendemos a necessidade de garantias de segurança. Temos muito claro que é importante na soberania deste nação", afirmou. "Parte de minha missão é sentar, ouvir suas preocupações no que diz respeito aos Estados Unidos", acrescentou.
Antes do encontro previsto entre os dois, Zelensky afirmou que deseja que a guerra com a Rússia termine em 2025.
"Queremos garantias de segurança este ano, porque queremos acabar com a guerra este ano", disse durante a coletiva de imprensa.
O presidente ucraniano também garantiu que seu país "não está à venda", depois de se recusar no sábado a assinar um acordo proposto pelos EUA sobre os recursos minerais de seu país.
"Eu defendo a Ucrânia, não posso vender nosso país. Isso é tudo", declarou aos repórteres.
A administração americana explicou que esperava obter acesso a 50% dos minerais estratégicos da Ucrânia como compensação por sua ajuda militar e econômica.
W.Nelson--AT