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Conflitos 'contaminam' consenso entre ministros do G20 no Brasil
Um "impasse" sobre os conflitos em Gaza e Ucrânia marcou a reunião de ministros das Finanças do G20, que terminou nesta quinta-feira (29) sem uma declaração conjunta em São Paulo.
"Nós havíamos nutrido a esperança de que temas mais sensíveis relativos à geopolítica fossem debatidos exclusivamente no track diplomático", disse na coletiva de imprensa final o ministro da Fazenda, Fernando Haddad. O Brasil exerce este ano a presidência rotativa do grupo das maiores economias do mundo.
A reunião de autoridades econômicas do G20, que se estendeu por dois dias em São Paulo, apresentou as mesmas diferenças do encontro de chanceleres no Rio de Janeiro na semana passada, segundo o ministro.
"Se não foi possível lá, dificilmente iríamos chegar a uma solução satisfatória aqui", indicou Haddad.
Mais cedo, o ministro das Finanças alemão, Christian Lindner, havia dito a jornalistas que a aprovação de um comunicado estava "condicionada" a que se refletisse a situação geopolítica.
"Não há nada de usual neste G20, porque temos uma guerra contra a Ucrânia, o terror do Hamas e a situação humanitária em Gaza, e não podemos ficar indiferentes a isso; tudo isso também deve ser discutido aqui", afirmou Lindner.
A Alemanha se recusou a evitar a menção porque "também somos representantes dos valores de nossos países e defensores da ordem internacional", acrescentou.
Segundo Haddad, os conflitos não foram debatidos nas reuniões, que abordaram temas como desigualdade ou iniciativas de criar impostos para super-ricos.
A declaração final seria assinada "se não fosse a insistência de alguns membros do G20 de fazer constar uma nota, que seria até de rodapé, que não comporia o corpo do comunicado, fazendo referência" aos conflitos.
A presidência do G20 emitiu após a reunião um comunicado no qual se mencionam as "guerras e conflitos em escalada" entre os riscos para a atividade global.
- Debate econômico -
O Brasil, anfitrião após suceder à Índia em dezembro na presidência rotativa do G20, tentou centrar a agenda em suas prioridades, como as desigualdades ou a discussão sobre a necessidade de cobrar impostos aos super-ricos.
Segundo Haddad, as propostas foram bem recebidas, e "houve consenso" nos temas próprios do grupo financeiro.
Pela manhã, o ministro da Fazenda do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva iniciou a jornada enfatizando a proposta de cobrar impostos de bilionários.
"Apesar dos avanços recentes, é um fato inquestionável que os bilionários do mundo continuam evadindo nossos sistemas tributários por meio de uma série de estratégias", disse.
O Brasil "buscará elaborar uma Declaração do G20 sobre tributação internacional" para a próxima reunião ministerial em julho, indicou Haddad.
Em conjunto, os países do G20 representam 80% da economia global.
Em 2021, os ministros das Finanças do G20 respaldaram uma reforma fiscal global que, segundo Haddad, espera-se concluir em breve.
Por isso, alguns países pressionam agora por um "terceiro pilar", que abordaria a evasão fiscal por parte dos bilionários.
Isso "poderia ser chave para resolver muitos dos desafios que enfrentamos", acrescentou.
O ministro francês, Bruno Le Maire, disse na quarta-feira que seu país busca "acelerar" as negociações internacionais por impostos mínimos para os ricos.
No G20, "é a primeira vez que falamos claramente sobre esse tema e queremos trabalhar na luta contra a otimização fiscal", disse nesta quinta-feira a jornalistas.
O economista francês Gabriel Zucman, um especialista na relação entre evasão fiscal e desigualdade, foi convidado como palestrante para a reunião dos líderes.
"Se os bilionários pagassem 2% de imposto de renda sobre sua riqueza a cada ano [...] isso geraria cerca de US$ 250 bilhões [R$ 1,24 trilhão] em receitas fiscais adicionais em todo o mundo", disse Zucman.
Assim, por exemplo, os países em desenvolvimento poderiam obter "metade dos US$ 500 bilhões [R$ 2,49 trilhões] adicionais que se estima necessitam para enfrentar os desafios da mudança climática".
O G20 é formado pelas 19 maiores economias do mundo, a União Europeia e, pela primeira vez, a União Africana.
M.King--AT