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Argentina relembra passado de Francisco, do menino travesso ao homem simples
Provavelmente ele queria ser mais um ex-aluno, mas, no colégio católico no bairro de Buenos Aires onde Jorge Bergoglio iniciou os estudos com cinco anos, cada história sobre o menino travesso que se tornaria o papa Francisco passa de geração em geração.
"Aqui ele fez o jardim de infância e, nos pátios grandes, jogava bola com seus amigos", lembra a freira Teresa Rovira ao receber a AFP no Instituto Nossa Senhora da Misericórdia, no bairro de Flores.
"Contam que ele era muito levado", ri, acentuando as palavras com ternura ao repetir relatos de outras irmãs que o viram crescer. "Ninguém nasce santo, se torna santo", acrescentou.
Além de ser a escola onde estudaram as irmãs do pontífice, falecido nesta segunda-feira (21) aos 88 anos, o lugar fica a poucas quadras da casa onde ele nasceu e da Basílica de San José de Flores, onde decidiu, aos 17 anos, abraçar a vocação do sacerdócio.
Assim, o liceu, quase centenário, guarda um vínculo inquebrantável com a vida religiosa de Bergoglio.
Em sua pequena capela de vitrais, o então padre presidiu uma missa pela primeira vez. Também celebrou ali uma de suas últimas homilias em Buenos Aires, antes de partir para o Conclave no Vaticano, no qual acabaria sendo eleito papa.
"Ele partiu com uma pequena mala e com a roupa do corpo, simples como o homem que era. Estava convencido de que voltaria à sua amada Buenos Aires, e não voltou mais", conta Rovira.
- Irmã Dolores -
Nos pátios da escola estão conservadas as escadarias de mármore que o pequeno Bergoglio subia e descia, uma e outra vez, sob a tutela da irmã Dolores, enquanto repetia a tabuada de multiplicar.
Ela foi sua catequista e a mulher a quem Bergoglio sempre chamou de "professora".
Cursou o ensino fundamental e o médio em outras instituições, mas, neste colégio, fez a primeira comunhão e a crisma: os primeiros passos de uma vida católica que ganhou destaque no Vaticano, sem nunca cortar os laços com seu bairro natal.
Francisco costumava visitar a escola no aniversário da data em que fez sua primeira comunhão, em um gesto de gratidão com a irmã Dolores, que "o acompanhou em um momento difícil de sua vida, quando, aos 21 anos, teve seu primeiro problema de saúde pulmonar", conta a irmã Rovira.
"Aqui estava também sua confessora e aqui costumava vir para comer massa aos domingos, na cozinha, como mais um", prossegue.
O então arcebispo chegava de transporte público vindo da Catedral, na Praça de Maio, perto da Casa Rosada (sede da Presidência), e entrava no colégio por uma porta lateral, direto para a cozinha, para compartilhar um chá em cumplicidade com a cozinheira.
"Ele lhe dizia: 'Menina, não avise às freiras que cheguei ainda, primeiro tomamos chá, mas deixa que eu faço'", lembra Rovira, sorridente. "Ele gostava de se sentir próximo dos demais", relata.
Mas Francisco também tinha um lado de "portenho teimoso", como ela o descreveu. "Embora tivesse dificuldade em um dos joelhos e às vezes mancasse, jamais aceitava ir de táxi", conta Rovira.
- Coração em Flores -
"Ele gostava muito de Flores, era o seu bairro, sua paróquia, sua raiz. E, mesmo em Roma, seguia com seu pensamento aqui até o último minuto. Enquanto estava hospitalizado, mandou um quadro para a igreja, seu coração seguia em Flores", declarou o pároco Martín Bourdieu.
Na igreja, todas as missas lembraram a figura do pontífice, e a juventude católica organizou uma jornada de orações para cumprir com a súplica de Francisco: "Rezem por mim".
Na entrada da basílica, vendedores ambulantes ofereciam flores de plástico com uma foto de Francisco. Uma longa fila começava no confessionário no qual Francisco dizia ter recebido o chamado ao sacerdócio. É o que indica uma placa no local.
"Os fiéis têm muita dor, mas também muita gratidão", disse Bourdieu.
"Francisco nos deixou uma forma de ser igreja que é estar nas ruas, aberta para todos e com um olhar preferencial para os pobres. Nós, cristãos, sabemos onde ele está e com quem está, e sabemos que ele deu tudo de si aqui", completou.
Th.Gonzalez--AT