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Smoking e ponchos, a peculiar identidade do futebol do Equador
De um smoking listrado e chamativo a um elegante terno sob medida inspirado em um poncho indígena. O futebol equatoriano estabelece uma identidade única que atrai fãs do estilismo e do esporte.
O Barcelona de Guayaquil, comandado pelo técnico Segundo Castillo, e o Mushuc Runa, time surpresa da Copa Sul-Americana de 2025, são exemplos no Equador da relação entre futebol e moda, uma aliança de indústrias que movimentam milhões de dólares.
Castillo, de 43 anos, se veste para impressionar... e consegue.
As câmeras focaram no treinador equatoriano quando apareceu no campo do Estádio Monumental Banco Pichincha vestindo um smoking branco e usando gravata borboleta.
Naquele dia 5 de março, o Barcelona derrotou o Corinthians por 3 a 0 e avançou à fase de grupos da Libertadores, mas a equipe não conseguiu avançar às oitavas de final e acabou eliminada no Grupo B.
Castillo virou sensação. Vídeos virais, um artigo no portal da Vogue Itália e outro no The New York Times destacaram o estilo do treinador.
A Conmebol o chamou de "a representação da elegância no futebol".
Marisol Romero, professora de design de moda na Universidade de San Francisco, afirma que Castillo é o convidado que faltou no Met Gala, que este ano destacou o dandismo negro, uma estética herdada da escravidão e transformada em uma declaração de elegância, identidade e emancipação.
"Seus ternos de silhueta são clássicos, mas com ele, com a cor, vai a outro nível, vai para esse lado dândi", disse a especialista à AFP, referindo-se ao terno rosa com estampa de animal que usou no jogo contra o River Plate.
Castillo, ex-meio-campista de Everton e Wolverhampton da Inglaterra, "teria ficado perfeito no Met Gala porque é exatamente disso que se trata. Ressaltar a elegância, a identidade própria", conclui Romero.
- Abraçar as raízes -
O figurino chamativo de "Sir Second Castle", como foi batizado nas redes sociais graças à sua elegância, nada tem a ver com o desempenho do Barcelona em campo, mas diz muito de como o treinador quer apresentar sua equipe para o mundo.
É preciso estar "à altura do torneio, do local e do clube", disse Castillo, que escolhe suas roupas com a família, com as quais espera levar sorrisos aos rostos de seus jogadores e aliviar a tensão antes dos jogos.
A roupa "não garante que você vai vencer os jogos ou que é um bom ou mau treinador", acrescentou.
Ao construir uma marca pessoal ou de equipe, "você vai procurar aqueles diferenciais que podem existir no mundo do futebol, ou mesmo fora do esporte", disse à AFP Raúl Véjar, especialista em marketing esportivo da Universidad Hemisferios.
Castillo "dá publicidade à equipe, à cidade [Guayaquil] e ao Equador", destaca Romero.
Véjar ressalta o Mushuc Runa, que fez do tradicional poncho vermelho do povo indígena Chibuleo, na Serra Equatoriana, sua marca registrada, e convida os fãs a se conectarem com peças de vestuário de populações historicamente discriminadas.
Hoje, "estamos de alguma forma abraçando nossas raízes, e o Mushuc Runa entendeu essa tendência muito bem", comenta.
Os líderes do clube, que teve o melhor desempenho na fase de grupos da Sul-Americana com 16 pontos, criaram um traje para seus jogadores com calça branca e jaqueta vermelha, que tem nas mangas o bordado usado pelos indígenas em seus ponchos.
Foi uma "ideia de inclusão" para os mestiços e afros que jogam no Mushuc Runa, conta à AFP Karina Chango, vice-presidente do clube, nascida em uma comunidade indígena que, durante décadas, considerou o futebol um jogo de preguiçosos.
- "Casamento" poderoso -
Nas arquibancadas, "não é preciso usar camisa de time (...) com o poncho todo mundo consegue nos identificar", diz Ángel Telenchana, 26 anos, torcedor do Mushuc Runa.
O time se classificou de forma invicta para as oitavas de final da Sul-Americana. No último jogo, na quarta-feira, contra Palestino do Chile, os jogadores voltaram a usar o traje de gala.
"O segredo no futebol é aproveitar esses momentos em que você causa impacto não apenas nacionalmente, mas internacionalmente, quando você faz as pessoas voltarem para assistir", afirma Véjar.
Esses são os momentos em que Castillo e o Mushuc Runa se propuseram a brilhar fora das quatro linhas.
A moda esportiva "Não é uma indústria que (...) vai sair em uma Fashion Week, mas é uma indústria que movimenta muito dinheiro, gera muitos empregos", diz Romero.
A indústria da moda e acessórios é avaliada em aproximadamente US$ 2,4 bilhões (R$ 13,6 bilhões na cotação atual), segundo um relatório do Banco Mundial de 2019. Cerca de 300 milhões de pessoas em todo o mundo trabalham neste setor, segundo a ONU.
O futebol não fica atrás.
A Fifa obteve um lucro bruto de quase US$ 5,8 bilhões (R$ 33,1 bilhões) vinculado à Copa do Mundo de 2022, no Catar.
Esporte e moda formam um "casamento" poderoso, conclui Romero.
A.Anderson--AT