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Cineasta David Lynch morre aos 78 anos
O gigante do cinema americano David Lynch, que retratou o lado obscuro da história de seu país em obras como "Twin Peaks", "Veludo Azul" e "Cidade dos Sonhos", morreu nesta quinta-feira (16), aos 78 anos.
"Há um grande vazio no mundo agora que ele não está mais conosco. Mas, como ele mesmo diria: "Keep your eye on the donut, and not on the hole" (Fique de olho no donut, e não no buraco, em tradução livre), publicou a família de Lynch na página oficial dele no Facebook.
Os familiares não revelaram as causas nem o local da morte, mas o diretor e roteirista, que morava em Los Angeles, havia anunciado em agosto passado que sofria de enfisema pulmonar após anos de tabagismo.
Desde a intrigante obra sadomasoquista "Veludo Azul" (1986) até o thriller lésbico "Cidades dos Sonhos" (2000), Lynch se tornou um cineasta cult mundial, com seus retratos perturbadores da vida americana que influenciaram diretores como Quentin Tarantino e os irmãos Coen.
Mas talvez seja lembrado principalmente pela fascinante e inovadora série de televisão "Twin Peaks", pioneira do gênero antes da era do streaming.
Indicado ao Oscar quatro vezes, o cineasta, reconhecido por seu cabelo branco abundante, levou para casa apenas uma estatueta honorária, em 2019.
- Atração monstruosa -
Filho de pai cientista e mãe professora e nascido em Montana (norte) em uma família grande (quatro irmãos), Lynch teve uma vida errante.
Descobriu sua paixão na faculdade de Belas Artes da Pensilvânia nos anos 70, onde começou a pintar e a filmar curtas-metragens.
Desde o início, suas obras apresentavam personagens estranhos e marginais. Seu primeiro longa-metragem, "Eraserhead", filmado em 1977 em preto e branco, tratava de um bebê deformado monstruoso.
Lynch levou cinco anos para filmá-lo devido ao orçamento limitado. O cineasta ambientou a história no deprimido cenário industrial de Filadélfia e a impregnava com uma calma inquietante que se tornaria uma de suas marcas registradas.
Poucas pessoas que assistiram à obra a esqueceram. Nem mesmo outro mestre em ascensão de Hollywood, Stanley Kubrick, escondeu sua admiração.
Lynch continuou sua obsessão por retratar deformidades humanas em "O Homem Elefante", dramatizando a trágica vida de Joseph Merrick, que nasceu com uma grave deformação física.
Um John Hurt irreconhecível no papel principal recebeu uma das oito indicações ao Oscar do filme, enquanto Anthony Hopkins interpretou o médico amável que se tornou amigo de Merrick nos anos que antecederam seu suicídio aos 27 anos.
Foi um sucesso internacional que catapultou Lynch ao estrelato em Hollywood, mas seu brilho acabou ofuscado após a adaptação do romance de ficção científica "Duna", que foi um fracasso estrondoso de 40 milhões de dólares.
- Mistério entre os pinheiros -
"Veludo Azul" levou Lynch ao caminho do sucesso e marcou o início de um relacionamento de cinco anos com a estrela do filme, Isabella Rossellini.
Em 1990, Lynch confirmou seu retorno com aquela que talvez seja sua obra mais influente: "Twin Peaks". Ambientada na cidade fictícia de mesmo nome, chamada assim em uma referência aos seus altíssimos pinheiros, a história de Lynch começava com um saco para cadáveres contendo uma jovem sendo recuperado de um lago.
Ao longo de oito episódios, uma estranha normalidade foi se instalando, e o assassinato da bela Laura Palmer ficou sepultado sob camadas de mistério.
Foi um sucesso em sua primeira exibição na ABC e fez parte de um grande ano para Lynch, que também levou o primeiro prêmio em Cannes com seu filme "Coração Selvagem".
Lynch fez uma série sequencial de "Twin Peaks" em 1991 e, um ano depois, um filme spin-off protagonizado, entre outros, por David Bowie, juntamente com o simpático agente do FBI "Cooper", interpretado por Kyle Maclachlan.
MacLachlan chamou Lynch de "um homem enigmático e intuitivo, com um oceano criativo ardente dentro de si". "Devo a ele toda a minha carreira."
O diretor Steven Spielberg lembrou Lynch como "um sonhador único e visionário, que dirigiu filmes que pareciam feitos à mão", enquanto seu colega Ron Howard saudou aquele que chamou de "um artista destemido", que "provou que a experimentação radical pode dar lugar a um cinema inesquecível".
- Meditação e meteorologia -
O lado obscuro do "sonho americano" foi uma das obsessões de Lynch, mas ele se desviou do tema em "The Straight Story" para contar a história real de um homem que viajou em seu cortador de grama de Iowa a Wisconsin para visitar um irmão doente.
Em 2006, com o lançamento de "Inland Empire", um retrato sombrio de Hollywood protagonizado por uma Laura Dern enlouquecida no papel de uma atriz abatida, Lynch deu por encerrada sua carreira cinematográfica.
Naquele mesmo ano, ele se casou e se divorciou de sua terceira mulher, Mary Sweeney, diretora e produtora de cinema, que havia sido uma de suas colaboradoras por muito tempo.
"É preciso ser egoísta. E isso é terrível", disse Lynch em 2018 sobre suas habilidades como pai. "Na verdade, eu nunca quis me casar, nunca quis ter filhos. Uma coisa leva à outra, e aí está."
Ao longo das últimas décadas, Lynch explorou a fotografia e a música até se tornar um defensor da meditação transcendental.
Lynch, fumante inveterado e viciado em café, costumava se sentar duas vezes ao dia desde 1973 para repetir um mantra durante 20 minutos e se tornou uma espécie de guru do clima, criando uma "previsão meteorológica" on-line de um minuto de duração que transmitia diretamente de sua casa em Los Angeles.
F.Ramirez--AT