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Disputa por sucessão de chefão do tráfico morto pode gerar nova onda de violência no México
A espetacular demonstração de força do Cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG), por meio de incêndios e confrontos com os militares em várias regiões do México após a morte de seu chefe, despertou o temor de que uma disputa pela nova liderança reproduza em breve essa onda de violência.
A morte de Nemesio Oseguera, conhecido como "El Mencho", constituiu uma vitória de curto prazo para o governo da presidente Claudia Sheinbaum, mas, segundo especialistas, o verdadeiro desafio será conter o contra-ataque do CJNG, que inevitavelmente entrará em uma disputa interna pelo poder.
Oseguera caiu no domingo nas mãos de militares em Tapalpa, no oeste do país. Ele ficou ferido quando tentava fugir e morreu durante a transferência para o hospital.
Para os especialistas, a resposta do cartel — com confrontos armados, bloqueios e incêndio de carros, comércios e bancos em 20 dos 32 estados do México — não foi apenas uma vingança pela morte de seu líder, mas uma demonstração de força dirigida às autoridades e aos grupos criminosos rivais.
- Como será essa disputa? -
O cartel terá que preencher o vazio deixado por "El Mencho", que comandou de maneira vertical e com mão de ferro essa organização de mais de 30 mil membros, segundo estudos acadêmicos.
Para Raúl Benítez Manáut, especialista mexicano em segurança nacional, a questão é se haverá uma transição pactuada entre as segundas hierarquias do cartel ou se será desencadeada uma violenta guerra interna.
O pesquisador considera que, de qualquer forma, o governo deverá agir antes da Copa do Mundo de 2026, especialmente no estado de Jalisco, cuja capital, Guadalajara, será uma das três sedes mexicanas do torneio de futebol que será disputado de 11 de junho a 19 de julho.
O CJNG é uma organização "muito centralizada, com grande capacidade de causar terror com carros, bombas e tudo isso", que gera "uma espécie de terrorismo tático", explicou Manáut à AFP.
Se a organização criminosa agir "sincronicamente em várias ocasiões", como fez no domingo, colocará "em sérias dificuldades o governo mexicano e as forças de segurança".
- Quem será o herdeiro de "El Mencho"? -
A onipresença de Oseguera no CJNG foi tal que muitos acreditam que ele pode ter nomeado seu sucessor para assegurar a coesão do cartel.
Em 2025, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos indicou que Julio Alberto Castillo Rodríguez, genro de "El Mencho", era "considerado um possível sucessor de Oseguera".
Castillo facilitou, por meio do porto de Manzanillo, na costa do Pacífico, a entrada de precursores químicos que o cartel utiliza para fabricar fentanil e outras drogas que acabam sendo traficadas para os Estados Unidos, afirmou então o Departamento do Tesouro em comunicado.
Outras duas ou três pessoas também são apontadas como possíveis líderes do grupo criminoso. Habitualmente, essas organizações têm dois tipos de homens fortes: um de terno, que administra o dinheiro, e um chefe de pistoleiros, explica Benítez Manáut.
"Os pistoleiros vão querer o dinheiro do líder" e tentarão tomá-lo à bala; o empresário "o terá bem escondido" e dirá: "'se você me matar, não vai ficar com um centavo, melhor fazermos um acordo'".
Depois que o filho mais velho de Oseguera, conhecido como "El Menchito", foi condenado à prisão perpétua nos Estados Unidos em 2025, mencionou-se como possíveis sucessoras sua ex-esposa Rosalía González Valencia e suas duas filhas.
Mas Mike Vigil, ex-agente da DEA, afirma que um cartel como o CJNG não receberá "ordens de uma mulher, porque eles acreditam muito no machismo".
- O governo conterá o impacto? -
A violenta resposta da organização como represália pela morte do chefe do tráfico provocou medo na população.
"Tratava-se de enviar uma mensagem ao governo mexicano e aos cartéis rivais dizendo (...) 'nós somos poderosos, ainda estamos fortes'", afirma Vigil.
Eles estão advertindo que a morte de "El Mencho" não os enfraqueceu e ameaçando seus inimigos para evitar que tomem suas rotas do narcotráfico e os territórios onde atuam, explica.
O governo tem "tomado precauções", mobilizando milhares de militares em Jalisco e em outros estados, afirma o ex-agente da DEA, que considera que as forças armadas controlarão a situação.
Manáut ressalta, no entanto, que os militares devem expulsar esses pistoleiros da costa do Pacífico, controlada pelo CJNG, assim como da "massa central" do país, por onde passam duas rodovias estratégicas com ramificações para vários estados do oeste e do norte do México.
A operação que terminou com a vida de "El Mencho" foi "uma vitória do Exército e também da presidente, no curto prazo. Mas, se não conseguirem controlar as consequências, isso pode se voltar contra eles", adverte o especialista.
M.Robinson--AT