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Horrorizados, moradores recuperam dezenas de corpos após operação mais letal do Rio
Em meio a soluços e ao cheiro de cadáveres, moradores do Complexo da Penha, na zona norte do Rio de Janeiro, enfileiraram mais de 50 corpos em uma praça na manhã desta quarta-feira (29), um dia após a operação policial mais sangrenta da história da cidade contra o tráfico de drogas que, segundo a Defensoria Pública, deixou ao menos 132 mortos.
Um jornalista da AFP viu um decapitado, um morto com a cabeça esmagada. Alguns moradores denunciaram "execuções".
A "Operação Contenção" tinha como objetivo fragilizar o Comando Vermelho, principal facção criminosa que atua nas favelas da cidade.
Até o momento, o governo do estado do Rio de Janeiro manteve em pouco mais de 60 o número de mortos anunciados na véspera, mas a Defensoria Pública do estado do Rio contabilizou 132 no total, em um e-mail enviado à AFP.
O governador Cláudio Castro (PL) disse, por sua vez, que o balanço iria mudar, pois os mortos só são contabilizados quando chegam ao Instituto Médico Legal (IML).
Castro disse à imprensa que a operação foi um "sucesso" e afirmou que as únicas vítimas foram quatro policiais mortos em ação.
Os corpos encontrados pelos moradores foram enfileirados perto de uma das principais vias do Complexo da Penha, uma das localidades alvo da operação.
"O Estado veio fazer uma chacina, não foi uma operação. Vieram direto pra matar, só vieram para tirar vida, tem muitas mortes", disse à AFP uma mulher que não se identificou, enquanto colocava a mão sobre o rosto de um jovem morto.
Tem "pessoas executadas, muitas delas com tiro na nuca, com tiro nas costas, isso jamais pode ser considerado segurança pública", disse o ativista Raull Santiago, de 36 anos, morador do Complexo do Alemão, região que também foi alvo da operação.
"Evidente ali as execuções, marca de queimadura, ou seja, pessoas amarradas, você tem pessoas ali que foram rendidas e assassinadas friamente", disse à AFP o advogado Albino Pereira Neto, que representa três famílias que perderam parentes.
Após serem recuperados, os corpos foram colocados em bolsas e levados ao IML.
O governador negou que entre os mortos na operação possa haver inocentes.
"O conflito não foi em área edificada, o conflito foi todo na mata. Não creio que tivesse alguém passeando na mata num dia de conflito e por isso a gente pode tranquilamente classificar" os mortos como criminosos, afirmou Castro em coletiva de imprensa. "Se tiver algum erro de classificação, ele com certeza é residual e irrisório", acrescentou.
Na terça-feira, foram registradas cenas de guerra na cidade que é o cartão-postal do Brasil: tiroteios, incêndios e confrontos entre as forças de ordem e supostos criminosos, que usaram ônibus como barricadas para bloquear ruas e drones para lançar "bombas" nos policiais, segundo as autoridades.
- Lula se reúne com ministros -
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se reuniu, nesta quarta-feira, com vários de seus ministros em sua residência oficial, em Brasília.
Uma delegação do governo federal viajará ao Rio de Janeiro ainda hoje para uma "reunião de emergência" com Castro.
A megaoperação causou caos pela cidade. Aulas foram suspensas, o transporte público entrou em colapso e milhares de moradores ficaram ilhados, sem conseguir voltar para casa.
Organizações internacionais e grupos da sociedade civil condenaram a operação. A ONU se disse "horrorizada" e 30 entidades, incluindo a Anistia Internacional, denunciaram a ação que põe a cidade "em estado de terror".
T.Wright--AT