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Sancionado pelos EUA, Moraes diz que vai ignorar 'pressões' em julgamento de Bolsonaro
O Supremo Tribunal Federal (STF) não cederá às pressões externas quando anunciar seu veredicto no julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), acusado de participar de uma trama golpista, afirmou, nesta terça-feira (2), o ministro Alexandre de Moraes, relator do caso, sancionado pelos Estados Unidos.
A Procuradoria-Geral da República (PGR) acusa Bolsonaro, de 70 anos, de ter liderado uma "organização criminosa armada" que conspirou para tentar se manter no poder após sua derrota para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições de 2022.
O ex-presidente (2019-2022) deve receber sua sentença em 12 de setembro, juntamente com outros sete corréus, incluindo ex-ministros e altos oficiais militares.
Bolsonaro, em prisão domiciliar desde o mês passado, não compareceu ao tribunal nesta terça-feira em Brasília e não planeja se apresentar às demais sessões, segundo sua defesa.
O ex-presidente "não está bem", disse a jornalistas seu advogado, Celso Vilardi, que mencionou uma questão de "saúde", sem dar mais detalhes.
O ministro Alexandre de Moraes afirmou que Bolsonaro e seus aliados buscaram instaurar uma "ditadura", referindo-se aos ataques de 8 de janeiro de 2023 às sedes dos Três Poderes, em Brasília, que a Procuradoria considera uma última tentativa de permanecer no poder.
"O país, e sua Suprema Corte, só têm a lamentar que, na história republicana brasileira se tenha novamente tentado um golpe de Estado (...) Pretendendo-se a instalação de um estado de exceção e uma verdadeira ditadura", disse Moraes.
Bolsonaro alega inocência e se considera vítima de uma "perseguição política", a pouco mais de um ano das eleições presidenciais.
Seu julgamento também teve consequências inesperadas, ao abrir uma crise sem precedentes entre Brasil e Estados Unidos.
Ao mencionar uma "caça às bruxas" contra o ex-presidente, seu aliado, Trump impôs, em 6 de agosto, tarifas de 50% sobre parte das exportações brasileiras.
O STF vai ignorar "pressões internas ou externas" ao emitir sua decisão no caso, disse Moraes, que foi sancionado pelos Estados Unidos em retaliação aos processos criminais do ex-presidente.
O tribunal será "absolutamente inflexível na defesa da soberania nacional", acrescentou o ministro.
- Processo inédito -
Esta é a primeira vez que um ex-chefe de Estado brasileiro enfrenta acusações do tipo, um evento histórico 40 anos após o fim da ditadura militar (1964-1985), cujos líderes nunca foram julgados.
Em Brasília, a presença policial foi reforçada na Praça dos Três Poderes, onde ficam o Palácio do Planalto, o prédio do STF e o Congresso Nacional.
No dia 8 de janeiro de 2023, milhares de bolsonaristas invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes para exigir uma intervenção militar e destituir Lula, que havia tomado posse uma semana antes.
Bolsonaro, que se encontrava nos Estados Unidos naquela data, é acusado pela PGR de ter sido o instigador dos distúrbios.
Segundo a acusação, o plano golpista também incluía um decreto de estado de sítio e um plano para assassinar Lula, seu vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin, e o ministro Alexandre de Moraes.
- Assinatura não obrigatória -
"Para que a tentativa se consolide, não é indispensável que haja ordem assinada pelo presidente da República", afirmou o procurador-geral da República, Paulo Gonet, durante a audiência.
Após a sustentação da PGR, é a vez da defesa dos réus. Em seguida, Moraes e quatro ministros votarão para chegar a um veredicto.
O ex-presidente, inelegível até 2030, é acusado de tentativa de golpe de Estado e da abolição violenta do Estado Democrático de Direito.
Ele pode pegar até 43 anos de prisão. Em caso de condenação, poderá apresentar recurso.
- Julgamento com "vícios" -
Embora seus aliados políticos acreditem que Bolsonaro está praticamente condenado de antemão, eles apostam na aprovação de uma anistia no Congresso.
Vários deputados se reuniram nesta terça-feira para tentar agendar a votação do projeto de lei da anistia de forma "imediata", disse o deputado federal Luciano Zucco (PL/RS).
Zucco denunciou os "vícios" do julgamento, que incluiu entre seus juízes no STF Cristiano Zanin, ex-advogado de Lula; Flávio Dino, ex-ministro da Justiça; e Moraes, alvo do suposto plano de assassinato.
Uma condenação, no entanto, acelerará a corrida pela sucessão de Bolsonaro na direita.
Do outro lado do espectro político, Lula, de 79 anos, conta em tentar a reeleição.
A.O.Scott--AT