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Trump, o presidente 'não cristão' aos olhos do papa Francisco
O presidente americano, Donald Trump, se considera um defensor da fé, um eleito de Deus, mas para o falecido papa Francisco, ele não era cristão. Para o pontífice, sua política migratória diz mais sobre ele do que suas palavras.
O papa argentino não costumava ter rodeios, nem mesmo diante de uma pessoa ilustre.
Em 2016, interveio à distância na campanha presidencial com um comentário sobre o então candidato Trump: "Uma pessoa que quer construir muros e não pontes não é cristã".
O bilionário, que prometeu em seguida erguer um muro ao longo da fronteira dos Estados Unidos com o México, qualificou o comentário de "escandaloso".
Nesta segunda-feira (21), após a morte do papa, de 88 anos, Donald Trump publicou uma breve mensagem em sua plataforma, Truth Social: "Descanse em paz, papa Francisco! Que Deus o abençoe, assim como a todos os que o amaram".
Mais tarde, anunciou ter ordenado que as bandeiras americanas sejam hasteadas a meio mastro nos prédios públicos em homenagem ao papa, a quem se referiu como um "homem bom".
O vice-presidente JD Vance, que se converteu ao catolicismo em 2019 e se reuniu com o líder da Igreja católica no domingo, também foi conciso em sua mensagem: "Meu coração está com os milhões de cristãos em todo o mundo que o amaram. Fiquei contente por tê-lo visto ontem, apesar de que obviamente estava muito doente", escreveu no X.
O presidente americano, que se define como cristão, afirmou, no dia de sua posse, que Deus o "salvou" de uma tentativa de assassinato para deter a decadência geral dos Estados Unidos.
Ele criou um "escritório da fé" na Casa Branca e recentemente publicou uma foto na qual aparece rezando no Salão Oval, cercado por guias espirituais evangélicos.
- Lição de teologia -
Francisco, que recebeu Donald Trump no Vaticano em seu primeiro mandato, em 2017, para uma audiência de meia hora, o criticou por suas posições antimigrantes.
Após a volta do republicano ao poder, em 20 de janeiro passado, o pontífice jesuíta, grande defensor dos excluídos, manteve as críticas.
A expulsão de "pessoas que, em muitos casos, deixaram seus países por razões de extrema pobreza, insegurança, exploração, perseguição ou grave deterioração do meio ambiente, atenta contra a dignidade de muitos homens e mulheres", lamentou, em uma carta incomum dirigida aos bispos americanos e publicada pelo Vaticano.
"Gostaria que se concentrasse na Igreja católica e nos deixasse cuidar das fronteiras", disse Tom Homan, a quem Donald Trump encarregou de orquestrar uma política de deportações em larga escala e que, assim como JD Vance ou a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, afirma ser católico.
Em sua carta, Francisco também pediu "uma fraternidade aberta para todos, sem exceção", deixando de lado "a identidade pessoal, comunitária ou nacional".
Muitos comentaristas a interpretaram como uma lição de teologia para Vance, que invoca um preceito da doutrina católica denominado "ordo amoris" - "ordem do amor" - para justificar a política antimigratória, afirmando que a caridade cristã deve beneficiar primeiro os mais próximos e não os estrangeiros.
O conflito entre o governo Trump e o clero católico também chegou aos tribunais: a conferência episcopal dos Estados Unidos impugnou a cessação do financiamento dos programas de apoio aos refugiados gerenciados pela Igreja.
Nas ruas, os cristãos choram a morte do papa.
"Gostei muito que tenha apoiado os migrantes", declarou à AFP Heidi, na capital americana. A mulher, que não quis informar seu sobrenome, disse sentir "uma profunda tristeza" com o falecimento do pontífice.
O papa Francisco "era muito mais cristão que muitos outros, por exemplo, aqueles que hoje estão no poder e se dizem cristãos, inclusive o presidente, cujo nome não vou dizer", declarou Mark Smerkanich em frente à catedral de Washington.
N.Mitchell--AT