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'Independência': países em Santa Marta pedem fim do uso de combustíveis fósseis
A conferência de Santa Marta, que reúne quase 60 países, enviou nesta terça-feira (28) uma mensagem a favor de abandonar os combustíveis fósseis não apenas para combater as mudanças climáticas, mas também para garantir sua segurança energética, ameaçada pela guerra no Irã.
Nesta cidade do Caribe colombiano, simbólica porque ali morreu o libertador Simón Bolívar em 1830, vários participantes deste encontro inédito levantaram a bandeira da independência.
"Já tínhamos uma razão muito boa para avançar" rumo à transição energética, disse o comissário europeu para o Clima, Wopke Hoekstra, no primeiro dos dois dias desta conferência voltada à saída das energias fósseis.
"Agora também temos razões comerciais e motivos de independência" energética, acrescentou.
A conferência foi organizada pela Colômbia e pelos Países Baixos há meses com um objetivo especialmente ambiental, já que o petróleo, o gás e o carvão são os maiores poluentes do planeta.
Mas a guerra no Oriente Médio, que fez disparar os preços do petróleo com o fechamento do Estreito de Ormuz, também expôs a dependência energética global desses combustíveis.
"Alguns falam em independência, outros em soberania, mas basicamente precisam de segurança energética. Cada vez mais, o mundo percebe que os combustíveis fósseis são fonte de insegurança", afirmou a enviada especial britânica Rachel Kyte.
A França quis dar o exemplo ao apresentar em Santa Marta seu plano de transição, com o qual busca principalmente neutralizar suas emissões até 2050.
Participam da reunião desde países produtores de combustíveis fósseis, como Brasil, Canadá e Noruega, até pequenos Estados insulares ameaçados pelo aquecimento, como Tuvalu.
O encontro não conta com os maiores emissores do mundo, como China, Estados Unidos e Rússia, nem com os chamados petroestados do Oriente Médio. Ainda assim, os participantes consideram isso uma vantagem para evitar que eles bloqueiem as discussões, como ocorre nas conferências climáticas da Nações Unidas.
Na COP28 de Dubai em 2023, a comunidade internacional se comprometeu a iniciar uma transição para abandonar os combustíveis fósseis. No entanto, desde então não houve avanços.
As emissões de gases de efeito estufa provenientes desses combustíveis voltaram a aumentar em 2025, atingindo um nível recorde.
O presidente colombiano, Gustavo Petro, advertiu sobre uma catástrofe: essas energias "levam à morte". "O capital pode se suicidar com a humanidade incluída", afirmou.
O Banco Mundial disse nesta terça-feira que a guerra elevará os custos de energia neste ano ao nível mais alto desde a invasão russa da Ucrânia em 2022.
A Europa "perde" 500 milhões de euros (R$ 2,9 bilhões) por dia enquanto dura a guerra devido à alta dos preços, segundo o comissário europeu.
- Parar de explorar? -
Cientistas apresentaram um "cardápio" com 12 medidas para orientar de forma concreta os Estados.
Por exemplo, "interromper todo novo projeto de extração ou de infraestrutura para energias fósseis".
"Sem dúvida, não há nenhuma justificativa para fazer qualquer nova exploração dos combustíveis fósseis", destacou à AFP Carlos Nobre, renomado climatologista brasileiro presente em Santa Marta para lançar um painel científico que apoiará os países em sua transição.
"Mesmo se não fizermos nenhuma nova exploração, a quantidade de combustíveis fósseis, petróleo, carbono e gás natural que já existem vai fazer a temperatura subir dois graus e meio até 2050", acrescentou.
Hoje o mundo está 1,4°C acima dos níveis do século XIX, e as nações estabeleceram em 2015 o limite de 2°C, ou até 1,5°C, para evitar um efeito catastrófico para o futuro do planeta.
Apesar da mensagem enviada na conferência, alguns países participantes, como o Brasil, parecem inclusive intensificar sua política de extração.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou na semana passada que a Petrobras trabalha com a mexicana Pemex para alcançar um acordo visando explorar petróleo em águas profundas do Golfo do México.
Ch.Campbell--AT