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Euro digital é aposta para acabar com dependência europeia de Visa e Mastercard
O euro digital, apresentado como uma alternativa europeia a empresas americanas como Visa e Mastercard para pagamentos eletrônicos, superou nesta terça-feira (23) uma etapa importante no Parlamento Europeu.
Em que consiste e o que mudará para os consumidores?
- O que é o euro digital? -
Trata-se de uma versão eletrônica do euro, desenvolvida pelo Banco Central Europeu (BCE) para oferecer uma alternativa aos gigantes americanos do setor de pagamentos.
"O dinheiro em espécie continuará existindo, e as pessoas poderão seguir utilizando os métodos de pagamento atuais. O euro digital simplesmente oferecerá uma opção adicional aos consumidores e garantirá sua liberdade de escolha em uma vida cotidiana cada vez mais digital", explicou à AFP Alessandro Giovannini, assessor do projeto no BCE.
Sobretudo, "também é uma oportunidade para acabar com uma dependência com a qual nos conformamos por tempo demais", acrescentou.
De fato, a zona do euro depende amplamente de sistemas administrados por operadores privados, em sua maioria americanos, como Visa, Mastercard e American Express, além de PayPal e Apple Pay.
"Hoje, quase dois terços dos pagamentos com cartão na zona do euro são processados por empresas não europeias, e 13 dos 21 países da zona do euro não possuem um sistema nacional de cartões para pagamentos cotidianos em lojas físicas ou online", destacou Giovannini.
Os europeus têm na memória um exemplo recente: as sanções impostas no ano passado por Washington contra juízes do Tribunal Penal Internacional (TPI), entre eles o francês Nicolas Guillou, que perdeu inesperadamente o acesso ao seu cartão Visa.
- Como funcionará? -
Os euros digitais terão sempre o mesmo valor de seu equivalente em moedas e cédulas.
Para utilizá-los, será necessário criar uma conta específica em um banco ou instituição pública, como uma agência postal, e transferir dinheiro para essa conta a partir de outra conta ou por meio de depósito em espécie.
Depois, será possível realizar pagamentos em lojas, pela internet ou entre particulares usando diferentes meios: cartão, aplicativo bancário ou telefone celular.
O sistema respeitará a privacidade, sem possibilidade de identificar os autores das transações, e contará com um modo offline que oferecerá a mesma confidencialidade do dinheiro em espécie.
Além disso, o BCE trabalha com empresas de comércio eletrônico em opções inovadoras, como pagamentos condicionais - por exemplo, pagar apenas após a entrega do produto ou parcelar a compra.
- Por que os bancos não querem? -
Os bancos são muito críticos ao projeto por várias razões.
A principal é o custo. Eles temem ter que arcar com uma conta de 18 bilhões de euros (R$ 105,9 bilhões), segundo estudo publicado em abril pela Federação Bancária Europeia (EBF).
O BCE, por sua vez, estima um custo muito menor, entre 4 bilhões e 5,8 bilhões de euros (R$ 23,5 bilhões a R$ 34,1 bilhões).
Os bancos também temem ser enfraquecidos caso os clientes convertam parte de seus depósitos em euros digitais. O BCE descarta esse risco.
"Graças ao seu desenho, que impede retiradas massivas de depósitos, o euro digital não apresentaria tais riscos, nem mesmo em situações de crise extremas e improváveis", argumentou Giovannini.
Por fim, os grandes bancos veem o euro digital como concorrente de suas próprias soluções de pagamento, entre elas o Wero, novo sistema pan-europeu.
- Quando será lançado? -
O BCE espera começar a emitir euros digitais em 2029, caso a legislação necessária seja aprovada até o fim deste ano.
A Comissão Europeia apresentou um projeto de lei há três anos, mas ele permaneceu travado no Parlamento Europeu.
Nesta terça-feira, porém, a situação avançou após a Comissão de Assuntos Econômicos do Parlamento aprovar a abertura de negociações com os Estados-membros para tentar chegar a um acordo sobre o texto. As conversas devem começar por volta de setembro.
O BCE afirma estar pronto para lançar uma fase piloto em meados de 2027 para testar o novo meio de pagamento antes de sua implementação.
"O euro digital reduzirá a dependência de soluções não europeias em toda a zona do euro e abrangerá todos os tipos de pagamentos. Nenhuma outra iniciativa tem a mesma ambição de fortalecer estruturalmente a soberania europeia", afirmou Giovannini.
D.Johnson--AT