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Guerra no Irã deixa a república islâmica intacta e uma oposição dividida
A guerra contra o Irã foi apresentada pelos Estados Unidos como um catalisador para o colapso da república islâmica, mas meses de combates não conseguiram derrubar a liderança clerical e deixaram seus opositores desamparados.
O presidente americano, Donald Trump, afirmou ao lançar a ofensiva que a campanha militar abriria caminho para que os iranianos se levantassem contra o regime.
Além disso, prometeu apoio aos protestos contra o governo que atingiram seu auge em janeiro e representaram o maior desafio às autoridades da república islâmica em vários anos.
Os movimentos de oposição fora do Irã, altamente fragmentados, apressaram-se em tentar se posicionar como possíveis sucessores do sistema governante no início da guerra, que começou com o assassinato do líder supremo, Ali Khamenei, em ataques realizados pelos Estados Unidos e por Israel.
No entanto, a república islâmica saiu intacta da guerra, enquanto os grupos de oposição no exílio estão mais divididos do que nunca e os dissidentes dentro do Irã enfrentam uma nova onda de repressão, segundo especialistas e organizações de direitos humanos.
O filho do último xá, Reza Pahlavi, que vive no exílio, não conseguiu se consolidar como uma figura de unidade, enquanto no Irã dissidentes de destaque, incluindo a vencedora do Prêmio Nobel da Paz Narges Mohammadi, continuam sob pressão das autoridades.
"Poderia ter havido uma motivação adicional para que as diversas facções da oposição realmente tentassem aproveitar o momento (...), mas simplesmente não foi isso que aconteceu", afirmou Thomas Juneau, professor da Universidade de Ottawa.
"As disputas internas entre a oposição no exílio se intensificaram", destacou ele, acrescentando que a oposição interna está "gravemente enfraquecida" após décadas de repressão.
Algumas pessoas dentro do Irã expressaram esperança em uma intervenção estrangeira após os protestos nacionais, motivados por graves dificuldades econômicas e encerrados por uma repressão violenta que, segundo organizações de direitos humanos, causou a morte de milhares de pessoas.
Mas essa esperança desapareceu quando a república islâmica não apenas resistiu, como também impôs novas medidas de segurança e um bloqueio da internet que, somados à morte e à destruição provocadas pela guerra, apenas agravaram as dificuldades econômicas.
- "Paz com meu carrasco" -
"Essa guerra nunca teve nada a ver com os direitos humanos do povo iraniano", afirmou Mahmood Amiry Moghadam, diretor da organização não governamental Iran Human Rights, porque as autoridades, ao contrário, "utilizaram a guerra como pretexto para intensificar a repressão interna".
"A mudança democrática deve vir do povo iraniano, não de uma intervenção militar estrangeira", argumentou.
O vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, insistiu esta semana que a guerra tinha como objetivo encerrar o programa nuclear iraniano e que a posição de Trump sempre foi a de que, se o povo iraniano quiser se rebelar, tudo bem, mas isso é uma questão exclusivamente deles.
Ainda assim, iranianos dentro do país e líderes da oposição expressaram um sentimento de traição diante do acordo entre Estados Unidos e Irã para encerrar a guerra.
"Por mais que tentem enfeitar o acordo com laços bonitos, ele apenas dará mais poder (à república islâmica) para nos oprimir ainda mais", opinou Sima, moradora de 34 anos de Teerã, que não revelou seu sobrenome por medo de represálias.
"Qualquer forma de paz com a república islâmica seria como fazer as pazes com meu carrasco."
A reação ao acordo por parte de figuras proeminentes da oposição foi fria.
O filho do último xá afirmou esta semana que "tentar negociar com este regime será um fracasso e todos sofreremos as consequências", em uma publicação nas redes sociais.
Pahlavi recebeu grande atenção da mídia após os protestos de janeiro, quando manifestantes gritaram o nome da dinastia de sua família, deposta pela revolução.
No entanto, ele não conseguiu obter o apoio de Trump, que não respaldou nenhuma figura da oposição iraniana.
- Presos políticos -
Os protestos e suas consequências também não impulsionaram novos esforços para formar uma coalizão de oposição, observou Juneau, já que as diferentes facções organizaram suas próprias manifestações de solidariedade no exterior.
Maryam Rajavi, líder do grupo opositor Mujahedin do Povo do Irã, criticou tanto a república islâmica quanto os monarquistas em sua reação ao acordo entre Estados Unidos e Irã, limitando-se a afirmar que ambos "desejaram a guerra".
Ela saudou "qualquer acordo destinado a pôr fim à guerra e ao sofrimento do povo iraniano" e pediu que ele incluísse o fim das execuções de presos políticos. Isso não foi mencionado no memorando de entendimento assinado na quarta-feira, segundo os textos divulgados por ambas as partes.
Organizações de direitos humanos e a Organização das Nações Unidas manifestaram preocupação com o aumento das execuções no Irã — mais de 40 desde o início da guerra — e das detenções nos últimos meses, incluindo muitas relacionadas aos protestos que as autoridades classificaram como "distúrbios terroristas".
Entre as figuras da oposição presas no país, a laureada com o Nobel, Narges Mohammadi, esteve perto de morrer durante a guerra devido a um problema cardíaco, segundo seus apoiadores.
Agnes Callamard, da Anistia Internacional, advertiu contra um acordo que ignore os riscos enfrentados pelos iranianos que se opõem à república islâmica.
O.Gutierrez--AT