Arizona Tribune - Guerra com Irã não deixa vencedores claros, dizem especialistas

Guerra com Irã não deixa vencedores claros, dizem especialistas

Guerra com Irã não deixa vencedores claros, dizem especialistas

Não há vencedores claros após quase quatro meses de guerra no Oriente Médio, que deixaram o Irã enfraquecido, mas impediram que Estados Unidos e Israel alcançassem seus objetivos, segundo especialistas.

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O acordo entre Washington e Teerã adia questões espinhosas e deixa Israel de fora, abrindo caminho para 60 dias turbulentos de negociações após a assinatura do memorando de entendimento inicial na Suíça, na sexta-feira (19).

Segue abaixo uma análise da situação dos principais atores, à medida que a poeira baixa:

- Irã -

O Irã sai do conflito com os Estados Unidos e Israel enfraquecido nos planos militar e econômico, e após sofrer golpes graves em sua liderança.

O líder supremo Ali Khamenei foi assassinado no primeiro dia de guerra, em 28 de fevereiro, e seu substituto e filho, Mojtaba Khamenei, ainda não apareceu em público.

Os ataques americanos e israelenses eliminaram figuras do alto escalão, mas o sistema de governo permanece intacto e conserva cartas importantes na mão ao entrar em negociações com os Estados Unidos.

“Do ponto de vista estratégico e geopolítico, o único verdadeiro vencedor neste momento é o Irã”, afirmou Ross Harrison, pesquisador sênior do Middle East Institute e autor de “Decoding Iran's Foreign Policy” (Decodificando a Política Externa do Irã, em tradução livre).

“Mas é uma vitória pírrica”, acrescentou Harrison, no sentido de que “o Irã saiu vitorioso ao impedir que seus adversários atingissem seus objetivos de guerra”, embora a “um preço alto”.

Ao atacar o Irã, Washington e Israel buscavam abrir caminho para a derrubada do governo iraniano, pôr fim às ambições nucleares daquele país e destruir suas capacidades de mísseis. Ainda que a face da liderança iraniana tenha mudado, o Irã alcançou seu objetivo de guerra de “sobreviver e restabelecer a dissuasão”, apontou Harrison.

A demonstração iraniana de que podia estrangular o vital Estreito de Ormuz para pressionar seus rivais “continuará pairando sobre a segurança regional como a espada de Dâmocles”, afirmou Burcu Ozcelik, pesquisadora de Segurança no Oriente Médio no think tank Rusi.

“Teerã usará essa vulnerabilidade para maximizar as concessões à medida que as negociações se arrastarem, o que representa um fracasso para Washington”, acrescentou.

“Há muitas coisas que Teerã está obtendo que não tinha antes da guerra. Então pode-se argumentar que o Irã venceu”, declarou à AFP Amir Handjani, do Quincy Institute, sediado nos Estados Unidos. Ele ressaltou, porém, que em uma guerra só é possível medir “quem perdeu mais”.

- Estados Unidos -

O presidente americano, Donald Trump, celebrou o tão anunciado acordo como uma vitória em seu 80º aniversário. “Que o petróleo flua”, disse, prometendo que o Estreito de Ormuz, por onde passava cerca de um quinto do petróleo e gás globais antes da guerra, estaria totalmente aberto a partir de sexta-feira.

A forte alta dos preços da energia atingiu os americanos, que votarão em novembro em eleições de meio de mandato cruciais para o controle do Congresso pelo Partido Republicano de Trump.

Bernard Hourcade, especialista em Irã do centro de pesquisa francês CNRS, disse que o acordo talvez significasse para os Estados Unidos “uma vitória midiática, mas não uma vitória política”, e apontou que Washington havia perdido “credibilidade” mundial em decorrência do conflito.

Para Ozcelik, “os concorrentes de Washington - de Moscou a Pequim - estudarão esse conflito pelo que ele revelou sobre os limites do poder americano, a tomada de decisões e a gestão de alianças”. “Essas lições moldarão futuras crises muito longe do Oriente Médio”, opinou.

O acordo deixa as questões centrais sobre o futuro do programa nuclear iraniano para as negociações de 60 dias.

Trump, que abandonou o acordo histórico de 2015 sobre o programa nuclear do Irã, reiterou inúmeras vezes que aquele país jamais obteria uma arma nuclear, um objetivo que Teerã sempre negou.

- Israel -

O adiamento da questão nuclear representa um revés importante para Israel, que saiu do conflito como “o grande perdedor”, afirmou Handjani. O país perdeu impulso em suas relações com os Estados do Golfo, além de perder capacidade de pressão sobre seu principal aliado, os Estados Unidos, indicou.

Figuras israelenses de todo o espectro político condenaram rapidamente o acordo, argumentando que ele não garantiria a segurança do país.

O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, às vésperas de eleições, é alvo de críticas internas por não ter alcançado os objetivos da guerra. Também foi criticado por Trump, que o descreveu como “um cara muito difícil” ao condenar os ataques no Líbano que ameaçavam descarrilar o acordo.

O entendimento prevê o fim da guerra entre Israel e o Hezbollah, mas deixa várias questões sem solução no Líbano, entre elas o apoio de Teerã a esse grupo armado.

R.Garcia--AT