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Portland, o reduto democrata americano que se tornou uma utopia progressista malsucedida
A caminho do trabalho de manhã cedo, Erica Hetfeld passa por uma equipe de paramédicos que tenta salvar a vida de uma pessoa tendo overdose. A cena se tornou um triste cartão-postal de Portland.
Considerada por muito tempo como um modelo de cidade progressista nos Estados Unidos devido a sua elevada qualidade de vida, com o seu declínio este reduto dos democratas tornou-se um bode expiatório para os republicanos.
"É uma tragédia. Isso não foi visto antes de descriminalizarem as drogas", diz Hetfeld no centro da maior cidade do estado de Oregon, enquanto três homens fumam fentanil em um beco.
Denunciando a falta de punições para o consumo de drogas em público, a republicana de 42 anos conta que se mudou do centro da cidade para um condomínio fechado de classe média alta após um assalto.
"Você recebe uma multa maior por estacionar em uma vaga para pessoas com deficiência do que por fumar fentanil", critica.
O consumo de drogas foi descriminalizado neste estado em fevereiro de 2021, através de uma reforma pioneira que multa os usuários, punindo com prisão apenas a venda e produção de entorpecentes.
A mudança coincidiu com a epidemia pelo consumo de fentanil que se espalha pelos Estados Unidos e polariza a sociedade.
- "Temos que cuidar da cidade" -
A imprensa conservadora explora em suas manchetes o declínio de Portland, governada pelo Partido Democrata há mais de 40 anos, em vistas da campanha eleitoral neste ano de eleições presidenciais.
A cidade é retratada como uma terra arrasada que, segundo eles, é consequência das ideias progressistas.
Líderes do Partido Republicano, como o governador da Flórida, Ron DeSantis, e o ex-presidente Donald Trump, utilizam a cidade como argumento na guerra cultural que divide o país.
Em setembro, Trump, favorito nas primárias republicanas, afirmou que os protestos que eclodiram na cidade em 2020, após a morte de George Floyd por policiais brancos, destruíram Portland.
"Quantas pessoas foram acusadas de destruir Portland? A cidade está em ruínas até hoje. Os lojistas nem sequer reconstruíram suas vitrines, colocaram tábuas de madeira", disse ele.
Mas para Lisa Schroeder, proprietária do conhecido restaurante Mother's, a questão se tornou um jogo político.
"Temos outras questões com que nos preocupar. Em vez de cuidar dos candidatos políticos, temos que cuidar da cidade", disse a democrata, recordando o passado áureo de Portland com sua intensa atividade cultural.
- "Drogas a cada esquina" -
Mas a cidade vive tempos sombrios.
Os preços exorbitantes do metro quadrado expulsam moradores.
Gigantes como a Nike e Target fecharam diversas filiais em Portland devido aos assaltos. A adoção do teletrabalho também esvaziou o centro da cidade, agora dominado pelas drogas e por pessoas em situação de rua.
"Há drogas a cada esquina", diz Schroeder, que perdeu dois terços de seu faturamento desde a pandemia de covid-19.
Apesar disso, defende a descriminalização das drogas porque acredita que esta estratégia é melhor do que uma abordagem punitiva. Para ela, o que falhou foi a ausência de uma estrutura de saúde que acompanhe a mudança de paradigma.
Esta mulher de 66 anos também denuncia a vista grossa feita pela polícia após esta descriminalização.
"A polícia assumiu uma atitude passivo-agressiva. Eles disseram: 'Vamos estragar esta cidade (...) Eles querem descriminalizar as drogas. Vamos mostrar-lhes o que significa descriminalização", disse ela.
Após um aumento entre 2019 e 2022, a criminalidade diminuiu em 2023 na cidade onde a polícia demora em média 20 minutos para atender uma chamada de emergência.
"Éramos um reduto progressista, éramos como um farol. De repente somos um alerta do que pode dar errado", diz o analista político democrata Kevin Looper.
Para ele, o extremismo sufoca o país.
"Entre a extrema esquerda que acredita que todos os policiais são maus, e a extrema direita que acredita que precisamos de um estado policial, a cidade está abandonada no meio dizendo 'o que eu quero é que alguém responda quando eu chame a polícia'".
E.Rodriguez--AT