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Transações suspeitas com petróleo antes de anúncio de Trump provocam indignação
Uma onda de vendas no mercado de petróleo, minutos antes de um anúncio do presidente americano Donald Trump na segunda-feira (23), despertou suspeitas entre operadores e responsáveis políticos, muitos dos quais viram indícios de uso de informação privilegiada.
No intervalo de dois minutos, vários milhares de produtos financeiros baseados no preço do petróleo trocaram de mãos na segunda por volta das 10h50 GMT (7h50 no horário de Brasília), um volume incomum em comparação com as poucas centenas que costumam ser negociadas nesse mesmo espaço de tempo.
Ao mesmo tempo, esses mesmos atores apostavam em massa numa alta da Bolsa de Nova York.
Apenas 15 minutos depois, Trump informava, em uma mensagem publicada em sua rede Truth Social, sobre conversas “produtivas” com o Irã.
Tratava-se de uma mudança de tom radical para o presidente, que no sábado havia dado 48 horas à República Islâmica para reabrir o Estreito de Ormuz, sob ameaça de ataques contra suas infraestruturas energéticas.
O valor teórico desses produtos alcançava várias centenas de milhões de dólares.
Segundo cálculos feitos para a AFP por um operador de mercado, essas transações poderiam ter gerado várias dezenas de milhões de dólares de lucro graças à brusca queda das cotações do petróleo e ao salto de Wall Street que se seguiram à comunicação de Trump.
“Ver transações grandes como essas antes de um anúncio é um pouco suspeito”, avalia Michael Lynch, analista de petróleo na Strategic Energy & Economic Research.
“É algo incomum. Não se vê isso, nesse nível, no mercado de petróleo”, acrescentou.
“Quem foi? Trump? Um membro da sua família? Alguém da Casa Branca? É uma corrupção [...] alucinante”, reagiu o senador democrata Chris Murphy no X.
Por enquanto, nenhum elemento permite afirmar que Trump esteja relacionado, de uma forma ou de outra, com essas operações.
“Qualquer insinuação, sem provas, de que um membro do governo tenha praticado esses atos não tem fundamento e é irresponsável”, comentou um porta-voz da Casa Branca a vários veículos de comunicação.
- Antecedentes -
O episódio semeou ainda mais confusão por ter ocorrido após outros dois casos com características semelhantes nos últimos meses.
No início de janeiro, um usuário ganhou mais de 400 mil dólares (2,09 milhões de reais) depois de apostar, por meio da plataforma de previsões Polymarket, na queda do presidente venezuelano Nicolás Maduro poucas horas antes de sua captura.
Há algumas semanas, seis contas abertas na Polymarket embolsaram 1,2 milhão de dólares (6,28 milhões de reais) após apostarem em um ataque americano contra o Irã em 28 de fevereiro, dia do início da ofensiva.
De acordo com uma análise do site especializado Bubblemaps, as quantias foram aplicadas apenas algumas horas antes do início dos bombardeios.
“Esse tipo de coisa leva as pessoas a se perguntarem se o seu governo age no interesse delas ou se está tentando enriquecer determinadas pessoas”, afirma Jordan Libowitz, vice-presidente do observatório ético Crew.
Essa série de movimentos financeiros insere-se em um contexto mais amplo, no qual parlamentares democratas e ONGs vêm acusando Trump de conflitos de interesse desde o início de seu segundo mandato, no ano passado.
Sua família, em particular, obteve centenas de milhões de dólares em lucros com criptomoedas, um mercado cuja desregulamentação foi impulsionada pelo presidente republicano.
Procurada, a CME, principal mercado mundial de produtos financeiros derivados, recusou-se a comentar.
E a CFTC, o regulador desses instrumentos financeiros, não respondeu aos inúmeros pedidos da AFP.
“Quando alguém realiza uma transação, há detalhes que devem ser fornecidos” às plataformas de negociação, “de modo que não há segredo”, ressalta Mark Neuman, responsável por investimentos na Hero Asset Management.
O outro grande regulador dos mercados, a SEC, também se recusou a comentar.
“Alguém precisa ser exposto [...] por uso de informação privilegiada”, reivindicou o republicano Jimmy Munson, candidato ao Senado estadual de Minnesota.
“Se houvesse um regulador mais rigoroso neste país, descobriria” a identidade dos operadores, diz Neuman.
“Mas parece que este governo é partidário de menos regulação [...] É realmente triste, porque a integridade dos mercados está em frangalhos”, concluiu.
O.Brown--AT