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Milei atribui tempestade nos mercados financeiros a 'pânico político' na Argentina
O presidente da Argentina, Javier Milei, afirmou nesta sexta-feira (19) que o "pânico político" desatou uma tempestade nos mercados que afunda o peso argentino e faz disparar o risco-país, a menos de um mês das eleições legislativas de outubro.
No Banco Nación, o maior banco público da Argentina, o dólar fechou cotado a 1.515 pesos e ultrapassou o teto da faixa de flutuação cambial estabelecida pelo governo.
Em comunicado, o Banco Central informou que, nesta sexta, interveio vendendo 678 milhões de dólares (R$ 3,6 bilhões) para evitar uma disparada da divisa americana.
Há "pânico político que está se espiralizando no mercado e gerando uma descoordenação enorme em termos de risco-país", disse o presidente ao discursar nesta sexta-feira ante a Bolsa de Comércio de Córdoba.
O mandatário defendeu seu programa econômico e considerou que estão "fazendo uma sabotagem" para prejudicá-lo.
O risco-país, uma medida da confiança do mercado sobre a solvência de um Estado, é elaborado pelo banco JP Morgan e rondou esta semana os 1400 pontos básicos.
Isso afasta a Argentina dos mercados internacionais de crédito e a posiciona como o segundo país de maior risco na região, atrás da Venezuela.
Na noite de quinta-feira, o ministro da Economia Luis Caputo havia prometido que o Banco Central venderia "até o último dólar" de suas reservas se fosse necessário para manter o peso dentro da meta estabelecida. "Não vamos nos afastar do programa", disse ele ao canal de streaming Carajo.
Até agora em setembro, o peso se desvalorizou 12,67%. O Banco Central teve que intervir pela primeira vez na quarta-feira, após passar cinco meses sem operar no mercado de câmbio.
Nas semanas prévias, o governo já tinha intervindo, mas através do Tesouro Nacional, posto que o acordo que firmou com o FMI em abril para obter um empréstimo de 20 bilhões de dólares (R$ 106 bilhões) o impede de vender reservas até que a cotação alcance o limite superior da faixa cambial.
- 'Não vamos esmorecer' -
O governo, que enfrenta o vencimento de dívidas de aproximadamente US$ 8 bilhões (R$ 42,6 bilhões) até janeiro, atravessa o seu pior momento político.
Em 7 de setembro, o grupo político de Milei saiu derrotado nas eleições legislativas na província de Buenos Aires, a mais populosa da Argentina, onde a oposição peronista venceu. Em 26 de outubro, enfrentará as eleições legislativas nacionais de meio de mandato.
O Legislativo nacional, onde o governo está em minoria, reverteu um veto presidencial a uma lei que concedia mais verbas para pessoas com deficiência, em desafio à política de ajuste de Milei.
Na quarta-feira, o Congresso aprovou em uma de suas câmaras a rejeição a outros três vetos de leis que concedem mais fundos a universidades e a hospitais pediátricos, e autoriza o envio automático de verbas às províncias. Na próxima semana, o debate vai continuar e tudo indica que o governo terá novas derrotas.
"Qual é a alternativa, gastar para gerar uma hiper [inflação]?", questionou Milei nesta sexta em Córdoba, onde liderará um ato ao final da tarde que servirá de lançamento da campanha eleitoral da situação para as legislativas de outubro.
"Sabemos que é difícil, mas pedimos que não esmoreçam, estamos na metade do caminho, é preciso seguir empurrando porque do outro lado está o caminho da prosperidade", prometeu.
A escalada do dólar acontece quando a Justiça investiga uma suspeita de corrupção na Andis (Agência Nacional para a Deficiência), um caso que envolve Karina Milei, irmã do presidente, seu braço direito e secretária-geral da Presidência.
A cotação do dólar é um tema sensível para os argentinos, que buscam proteger suas economias mediante a compra de divisas, e também para o governo, decidido a evitar que a depreciação da moeda impacte na inflação.
A Argentina registrou em agosto 1,9% de inflação, o mesmo nível de julho, e acumulou 19,5% de aumento de preços nos primeiros oito meses do ano.
O controle da inflação é um dos eixos principais do governo de Milei, que assumiu em dezembro de 2023 com um plano de forte ajuste fiscal.
W.Morales--AT