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Peso argentino se desvaloriza após suspensão de controle cambial
O peso argentino se desvalorizou perante o dólar nesta segunda-feira (14), em um dia marcado pela expectativa após o anúncio da liberação parcial dos controles cambiais que vigoravam desde 2019, e com a visita do secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent.
A moeda argentina recuou 12% e fechou cotada a 1.230 pesos por dólar, segundo o estatal Banco Nación, em reação à suspensão das restrições à compra de divisas anunciadas na sexta-feira.
O presidente Javier Milei foi recompensado na sexta-feira com a promessa de 42 bilhões de dólares (R$ 245 bilhões) de ajuda, em um voto de confiança contundente das instituições mundiais, principalmente do Fundo Monetário Internacional (FMI).
A isso se soma o apoio do secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, que fez uma visita relâmpago a Buenos Aires nesta segunda para apoiar o presidente ultraliberal "em seus esforços incansáveis para tornar a Argentina grande de novo", disse ele em coletiva de imprensa conjunta com Milei.
"Fiquei animado em fazer esta viagem para iniciar as primeiras discussões formais sobre comércio recíproco entre os nossos países", acrescentou.
Milei expressou seu desejo de firmar um tratado de livre-comércio com Washington, para o qual se disse disposto a retirar a Argentina do bloco regional Mercosul.
Mas os Estados Unidos avançaram no sentido contrário com a imposição de uma tarifa universal de 10%, embora tenha pausado outras mais altas para dezenas de parceiros comerciais por 90 dias enquanto mantém a pressão sobre a China.
"Entendemos a proposta de tarifas recíprocas" de Trump, disse Milei, "e estamos prontos para firmar um acordo comercial nessa linha que, sem dúvida, beneficiará tanto os Estados Unidos quanto a Argentina".
Bessent havia descartado um pouco antes, em entrevista ao canal Bloomberg TV, um tratamento preferencial imediato em relação à política tarifária dos Estados Unidos.
"Acho que vamos iniciar as negociações e, como a todos os demais [países], digo a vocês: 'Deem o melhor de si mesmos, vamos ver como vai ser e partiremos daí'", disse.
"Temos um monte de obstáculos a superar: tarifas, barreiras comerciais não tarifárias, manipulação cambial e subsídios à mão de obra e às instalações", acrescentou.
- Novo esquema -
O esquema cambial anterior fez o câmbio quintuplicar e impulsionou o mercado paralelo.
O novo mecanismo implica uma flutuação da moeda segundo a oferta e a demanda com um piso de 1.000 pesos por dólar americano e um teto de 1.400 pesos. O Banco Central poderá intervir para manter a cotação entre as duas bandas.
A partir desta segunda-feira, as pessoas físicas podem adquirir uma quantidade ilimitada de dólares por meio de operações bancárias, e um máximo de 100 dólares (R$ 584) em dinheiro vivo. Já as pessoas jurídicas precisam esperar até 2026 para enviar dividendos para o exterior.
A incerteza era sentida nas ruas. O trabalhador do setor dos transportes, Leonardo Reta, de 59 anos, disse à AFP que não conseguiu comprar uma peça de reposição que estava disponível na semana passada.
"Terei que ver o valor que vão me cobrar dentro de dois dias. Estão especulando tudo", comentou.
- 'Desespero' -
O controle da inflação é o principal capital político de Milei, que este ano passará por seu primeiro teste eleitoral nas legislativas de outubro.
Seu rigoroso plano de austeridade, com ajustes drásticos nas aposentadorias, na educação e na saúde, levou a uma queda da inflação de 211% em 2023 (quando o peso foi desvalorizado em 52%) para 118% no ano passado.
No entanto, a desaceleração do aumento do custo de vida foi interrompida em fevereiro, quando registrou 2,4%, subindo para 3,7% em março.
Nesse contexto, um grupo de cidadãos protestou em apoio às pessoas com deficiência na frente da sede do governo, onde estava Bessent, contra a falta de financiamento para o setor. Um pequeno grupo de manifestantes ateou fogo a uma bandeira dos Estados Unidos.
"Vive-se com muita angústia, à beira do desespero", disse à AFP Viviana Fernández, mãe de uma pessoa com deficiência.
Mas o presidente prometeu, em uma entrevista para uma emissora de rádio, que "até meados do ano que vem, o problema da inflação na Argentina vai acabar".
Santiago Furiase, membro da direção do Banco Central, também minimizou o impacto inflacionário do novo regime cambial. "As pessoas vão levar um tempo [para se acostumar], estão há anos com o chip de que a cada vez que o dólar sobe, associa-se à inflação", disse ao canal La Nación+.
"Certamente, a cotação vai ter uma reação inicial, mas, em seguida, será uma trajetória rumo ao piso da faixa" cambial, frisou.
G.P.Martin--AT