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Documentário 'NAZA' leva a Veneza depoimentos das forças israelenses sobre massacres com IA em Gaza
Com suas próprias palavras, membros das forças israelenses descrevem no documentário "NAZA", apresentado nesta quinta-feira (10) no Festival de Veneza, como realizavam massacres em Gaza a partir de dispositivos criados com inteligência artificial (IA).
Os jornalistas israelenses Yuval Abraham e Rachel Szor, — dois dos quatro autores do documentário "Sem Chão" (2024), ganhador do Oscar — falaram com 24 membros do Exército de Israel e dos serviços de inteligência de seu país que aceitaram depor diante das câmeras, sob anonimato.
"Deixamos que os soldados e os oficiais falassem sobre o que fizeram", disse Abraham em uma entrevista à AFP.
"O objetivo era muito simples: queríamos ouvir, com o máximo de detalhes possíveis, como eram os sistemas para matar em Gaza, como funcionavam", acrescentou.
O documentário recebeu 25 minutos de aplausos em sua estreia no festival, superando os 23 minutos de ovação ao filme "A voz de Hind Rajab" no ano passado, sobre uma criança palestina assassinada pelas forças israelenses enquanto fugia da Cidade de Gaza.
- "Como um videogame" -
Homens e mulheres das forças israelenses explicam, no documentário, como criaram e utilizaram sistemas com inteligência artificial que, a partir da rede de telecomunicações de Gaza controlada por Israel, identificavam pessoas que depois se tornariam alvo de bombardeios.
"No filme mostramos como podem usar um programa espião para abrir os telefones das pessoas no prédio e escutar o que realmente está acontecendo: os últimos momentos das crianças, das mulheres, dos homens que vão ser bombardeados", explica Szor.
Como relatam os próprios testemunhos, para cada alvo que querem eliminar, várias vítimas colaterais, até centenas, vão morrer no mesmo ataque.
O título do filme, "NAZA", faz referência justamente ao eufemismo usado pelos serviços de inteligência israelenses para indicar o número de civis que provavelmente morrerão no bombardeio.
"Você se sente um pouco como Deus", diz um dos relatos. "É como um videogame porque tudo é feito à distância", comenta outro.
Alguns fazem rascunhos para mostrar como funciona o programa em que os prédios de Gaza aparecem assinalados de acordo com o número de possíveis alvos.
"A vigilância em massa está diretamente ligada aos massacres em massa", indica Abraham.
A guerra empreendida por Israel em Gaza causou mais de 73.500 mortos e 174.500 feridos do lado palestino desde outubro de 2023, segundo o Ministério da Saúde do território palestino, dirigido pelo Hamas, cujos dados são considerados confiáveis pela ONU.
O conflito foi desencadeado após o ataque do movimento islamista em 7 de outubro contra Israel, que deixou mais de 1.200 mortos, a maioria civis, segundo um balanço da AFP.
- Anos de investigação -
Os depoimentos em "NAZA", a partir de entrevistas realizadas em terraços de Tel Aviv, durante a noite, são fruto de anos de trabalho de investigação para poder criar uma possível relação de confiança.
Mas os próprios idealizadores se surpreendem com o fato de as pessoas terem falado com tanta precisão sobre essas operações.
"Como é possível que tanta gente — eram 24, mas havia mais que não aparecem no filme — estivesse disposta a revelar detalhes do sistema, falar dos crimes horríveis que haviam cometido?", questiona Szor.
Com "NAZA", o único documentário em competição pelo Leão de Ouro, Abraham e Szor esperam que sirva para que o Ocidente abandone seu apoio diplomático e militar a Israel e imponha sanções.
"Nós, que estamos dentro de Israel e da Palestina tentando lutar por uma mudança, precisamos disso", disse Abraham. "Estão enfraquecendo as pessoas aqui dentro que apoiam os direitos humanos e uma solução política, ao se recusarem a agir", advertiu.
No ano passado, os dois jornalistas investigativos, junto com os palestinos Basel Adra e Hamdan Ballal, ganharam um Oscar de Melhor Documentário com "Sem Chão", sobre a violência dos colonos israelenses na Cisjordânia ocupada.
A.Anderson--AT