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'American Doctor' leva às telas o horror testemunhado por médicos em Gaza
O médico Mark Perlmutter atendeu pacientes após terremotos, furacões e conflitos em 30 países, incluindo seu país natal, os Estados Unidos. Mas nada o preparou para o horror que encontraria na Faixa de Gaza.
"Nossa primeira semana em Gaza foi pior do que todas as minhas missões juntas", disse à AFP o cirurgião ortopedista, que trabalhou após acontecimentos como os ataques de 11 de setembro em Manhattan, o furacão Katrina, na Louisiana, e o terremoto de 2010 no Haiti.
A brutalidade testemunhada por Perlmutter e seus colegas nos hospitais de Gaza desde que Israel iniciou sua ofensiva em resposta ao ataque do Hamas, em outubro de 2023, é o eixo de "American Doctor", documentário exibido no Festival de Sundance que chega a alguns cinemas dos Estados Unidos nesta sexta-feira.
Em sua estreia como documentarista, a diretora Poh Si Teng não procura explicar o conflito, mas acompanha o trabalho de três médicos americanos de diferentes origens: Perlmutter é judeu, Thaer Ahmad é muçulmano e de origem palestina, e Feroze Sidhwa é filho de zoroastristas.
"As pessoas acham que é preciso ter um mestrado neste assunto para entendê-lo", disse Sidhwa à AFP.
"A questão não é quanto você sabe sobre a história árabe-israelense. A questão é: você apoia o assassinato de crianças? Apoia a tortura de médicos? Apoia o bombardeio de hospitais?", questiona.
- "Trauma" -
O ataque do Hamas contra o sul de Israel em 7 de outubro de 2023 matou 1.221 pessoas, a maioria civis.
Desde então, a ofensiva israelense deixou mais de 73 mil mortos em Gaza, segundo o Ministério da Saúde do território, sob autoridade do Hamas, cujos números são considerados confiáveis pela ONU.
Israel justifica seus ataques a instalações médicas afirmando que o Hamas opera em túneis construídos sob hospitais, algo que os médicos dizem não ter constatado.
Uma das imagens mais duras do documentário mostra projéteis atingindo socorristas enquanto atendem pacientes após um bombardeio no hospital Nasser, em Khan Yunis, no sul da Faixa de Gaza.
Decidir o que mostrar foi um desafio para Teng, que trabalhou como jornalista audiovisual para a AFP, entre outros veículos.
"Se você mostra demais e fica mórbido, ninguém vai assistir. Mas você quer revelar a verdade e, se mostra pouco, não é real", explicou.
Ao considerar que exibir uma fotografia de crianças mortas poderia ferir sua dignidade, a diretora ouviu de Perlmutter que era obrigação do filme mostrar aos americanos o que seus impostos financiam.
"Foi quando entendi que não havia meio-termo nisso", afirmou Teng.
- "Frustrante" -
Para os três médicos, repetir constantemente a "urgência" da situação em Gaza em entrevistas ou audiências com congressistas é "frustrante".
"Se eu digo que há crianças passando fome, mães que não conseguem alimentar seus filhos ou adolescentes mortos por bombas, sua resposta deveria ser: 'Temos que parar isso'", disse Ahmad.
Teng também enfrentou resistência para financiar o projeto, mas afirma perceber uma mudança na opinião pública.
A diretora espera que "American Doctor" abra uma janela para Gaza e leve a sociedade a se olhar no espelho e perguntar: "É isso que somos?".
O.Brown--AT