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Modelo de Bukele também seduz o Brasil com vistas às eleições presidenciais
Farto de presenciar assaltos em Copacabana, William Correia criou um grupo de voluntários para patrulhar as ruas do bairro da zona sul do Rio de Janeiro e denunciar roubos nas redes sociais. Ele sonha que o Brasil copie o modelo do presidente salvadorenho, Nayib Bukele, contra o crime.
A insegurança é a principal preocupação dos brasileiros. Candidato da direita, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) busca capitalizar o medo de olho nas eleições de outubro com a promessa de importar a receita de Bukele.
"Eu gostaria muito de ver o caso como em El Salvador do Bukele aqui no Brasil, para que os criminosos tomem um choque de realidade", diz à AFP Correia, professor de artes marciais, de 39 anos, candidato a deputado federal pelo partido Democracia Cristã, de centro-direita.
O modelo de Bukele, que conseguiu reduzir a violência sob um controverso estado de exceção, foi bandeira de campanha de candidatos da direita eleitos presidentes na região, como Daniel Noboa no Equador, Abelardo de la Espriella na Colômbia e Keiko Fujimori no Peru.
No Brasil, facções criminosas, como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) impõem sua lei a milhões de moradores das favelas, enquanto o crime comum aterroriza a população com roubos e assaltos.
Oitenta e oito por cento dos brasileiros querem penas mais duras para os criminosos e 79% apoiam a redução da maioridade penal, segundo pesquisas recentes.
- "Inspiradora" -
Bukele reduziu a violência das gangues com prisões em massa em El Salvador, mas organismos de defesa dos direitos humanos denunciam prisões arbitrárias, torturas e mortes sob custódia.
Hoje, Bukele é o líder mais popular da América Latina, segundo uma recente pesquisa regional.
Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (2019-2022), em prisão domiciliar por tentativa de golpe de Estado, considera a experiência salvadorenha "inspiradora".
Entre outras medidas, ele promete, se eleito, construir mega-presídios de segurança máxima e declarar o CV e o PCC organizações "narcoterroristas", como fez recentemente o governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
"Se eu for pego, eu dificilmente vou sair da cadeia", disse à AFP durante um ato de campanha no estado do Rio, resumindo a ideia que quer fixar na cabeça dos criminosos.
Outros candidatos da direita também invocam Bukele em suas campanhas.
Já o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que tentará a releição e é acusado pelos adversários de ser leniente com o crime, evita esse linguajar.
Sua aposta é, principalmente, a "asfixia financeira": bloquear os bens e as empresas que as facções usam para lavar dinheiro.
- "A lei protege o meliante" -
Para Correia, a quem a justiça proibiu, em maio, de organizar as rondas de vigilância que realizou durante três anos em Copacabana, as violações dos direitos humanos são um preço inevitável.
"É como o câncer: a quimioterapia é ruim para o seu corpo, só que para aquele tipo de doença, vai surtir efeito. Então [...], quando a gente está vivendo nessa violência absurda, a gente tem que ter uma quimioterapia" contra o crime, defende.
O taxista Wallace Ferreira, de 53 anos, diz que "a lei brasileira protege o meliante e não o cidadão de bem" e que os delinquentes presos recuperam a liberdade rapidamente.
Ferreira parou de trabalhar à noite no Rio por medo, depois que um colega foi assaltado por um passageiro que o levou para uma emboscada.
- "Muitas mães vão chorar" -
Outros alertam para as consequências de uma linha-dura, quando a ação policial já custa vidas de inocentes, como Sônia Bonfim Vicente.
Em 2018, sua filha, então com cinco anos, foi baleada em uma operação enquanto esperava um ônibus na favela do Chapação, onde moram.
Três anos depois, conta, policiais atiraram e mataram em outra operação seu outro filho, Samuel, de 17 anos, e seu marido, e depois os acusaram de estar armados - uma acusação que ela tenta demonstrar que é falsa em um julgamento ainda em curso.
"O Brasil vai virar uma carnificina" se adotar o modelo de Bukele, diz à AFP Bonfim, de 41 anos.
"Se as forças de seguridade ficam mais fortes, com mais impunidade para atuar em nome de combater a criminalidade, então eu acho que vai só piorar", acrescenta. "Muitas mães vão chorar, muitos filhos vão perder a vida e a criminalidade vai continuar", conclui esta cabeleireira, que hoje trabalha em uma associação que apoia outras mães em situações similares.
Para o cientista político Robert Muggah, do Instituto Igarapé, especializado em segurança, o modelo de Bukele poderia "fragilizar as garantias democráticas sem conseguir a drástica diminuição da violência" vista em El Salvador.
"O panorama do crime no Brasil é mais complexo", explica. Enquanto as chamadas 'maras' (gangues) salvadorenhas baseiam sua atividade no controle local e na extorsão, o CV e o PCC são mais poderosos nos níveis territorial e financeiro, acrescenta.
P.A.Mendoza--AT