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Emirados usaram IA contra especialistas da ONU sobre Sudão, diz Anthropic
A empresa americana de inteligência artificial (IA) Anthropic descobriu uma operação vinculada com os Emirados Árabes Unidos que teve entre seus alvos especialistas da ONU críticos ao suposto papel de Abu Dhabi no conflito, segundo um documento publicado na noite de quinta-feira (10).
Em um relatório no qual explica como deteve operações ilegais procedentes de vários países, a Anthropic descreve uma ampla operação que atribui "com alto grau de certeza" ao governo emiradense.
A campanha, dirigida principalmente contra a Irmandade Muçulmana, usou agentes do assistente de IA da Anthropic, Claude, para gerar documentos diversos, conteúdo para publicação nas redes sociais e testemunhos sobre o Sudão.
A guerra entre o exército sudanês e os paramilitares das Forças de Apoio Rápido (FAR), iniciada em 2023, deixou mais de 200.000 mortos, segundo trabalhadores humanitários, e mais de 12 milhões de sudaneses deslocados, no que a ONU considera a mais grave crise humanitária do mundo.
Os Emirados Árabes Unidos foram acusados em reiteradas ocasiões de apoiar as FAR e de alimentar o conflito, o que negam categoricamente.
Segundo a Anthropic, a operação se articulava em torno de uma personalidade virtual chamada "Deadshot", que convocava "uma operação regional e transatlântica coordenada para desmantelar a Irmandade Muçulmana em todo o mundo".
Fundado em 1928 no Egito, este movimento pan-islamista sunita é apontado por seus supostos vínculos com o exército sudanês, o que este último nega.
Outra iniciativa consistiu em se apropriar da identidade de uma ONG sudanesa e redigir os testemunhos de duas pessoas para que "elementos favoráveis aos interesses de um dos dois lados do conflito chegassem à ONU como se procedessem de testemunhas locais independentes, em vez de atores estatais", destaca a Anthropic.
A empresa americana também assinala a elaboração de expedientes destinados a desacreditar relatores da ONU críticos ao papel de Abu Dhabi no Sudão.
Consultados pela AFP, as autoridades dos Emirados não responderam de imediato.
Segundo a Anthropic, a operação usou cerca de 300 contas falsas em redes sociais. No entanto, a empresa não pôde determinar se os testemunhos ou os expedientes chegaram aos seus destinatários, nem se influenciaram decisões políticas.
Na quinta-feira, a Anthropic anunciou ter encerrado várias operações de vigilância patrocinadas por Estados que usavam seus modelos de IA, e advertiu que governos e atores alinhados a eles recorrem cada vez mais à IA para espionar minorias e dissidentes.
Os incidentes se originaram em China, Irã e no oeste da África, e foram detectados e interrompidos entre janeiro e julho, informou a empresa em um relatório sobre o uso indevido de seus modelos.
P.Smith--AT