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Medo ronda funeral de preso político morto sob custódia na Venezuela
Cirilo Fernández tinha medo de falar sobre a morte de seu sobrinho, preso político morto sob custódia das forças de segurança venezuelanas. Mas quando viu o caixão chegar em casa, a sensação de impotência o obrigou a romper o silêncio.
Edilson Torres, de 52 anos, era policial do estado de Portuguesa (oeste). Foi detido em dezembro por enviar mensagens críticas ao governo de Nicolás Maduro. Faleceu na semana passada em Caracas.
"Acho que minha vida também está em perigo, [mas] estou consternado com a morte de meu sobrinho", diz Cirilo Fernández à AFP em Guanare, capital de Portuguesa, onde Torres foi preso.
Acusado de traição à pátria, seus familiares asseguram que ele ficou incomunicável na prisão até o momento em que foi levado ao hospital, onde morreu, segundo as autoridades, de infarto.
"Estou muito magoada, mas de pé na luta", afirma sua irmã Emelyn Torres, que confessa estar aterrorizada.
O velório foi realizado em sua casa, onde chegaram dezenas de amigos, parentes e até colegas policiais para prestar homenagem. O pânico é tão evidente quanto a tristeza no funeral: as pessoas murmuram, evitam conversar.
A morte de Torres ocorreu poucos dias após a queda de Maduro em um bombardeio dos Estados Unidos à Venezuela.
E sob pressão de Washington, o governo interino de Delcy Rodríguez anunciou a libertação de presos políticos, dos quais, segundo ONGs, há entre 800 e mais de 1.000.
Emelyn Torres percorreu junto ao caixão os 430 km de estrada desde Caracas. "Eu tinha muita fé que ia trazer meu irmão vivo", conta. "Mas tinha que acontecer isso para que libertassem os outros."
As solturas, no entanto, acontecem a conta-gotas. O governo fala em 116, mas organizações especializadas como o Foro Penal registram 56 até agora.
- Mensagens de WhatsApp -
A família diz que Edilson Torres trabalhava havia duas décadas na polícia de Portuguesa.
Em 4 de dezembro, dia de seu aniversário, agentes de outro órgão de segurança chegaram em casa à sua procura, lembra Edilmar Torres, a terceira de seus quatro filhos, de 17 anos. "Chegou o policial e nos perguntou onde ele estava", narra.
Os agentes o esperaram e o levaram com o argumento de que precisavam de ajuda para lavar um ar-condicionado. Ninguém ficou alarmado porque era uma atividade que ele fazia em seus momentos livres.
Sua filha tentou ligar para ele ao ver o tempo passar, mas ele havia deixado o celular.
Dois policiais voltaram em busca do telefone e informaram que ele estava detido "porque tinham encontrado umas mensagens que ele tinha naqueles grupos [de WhatsApp] dos policiais, que falavam mal do governo".
"E daí não soube mais do meu pai", acrescenta Edilmar.
Ela tenta manter a compostura enquanto procura pão, junto com seu irmão de 15 anos, para oferecer às dezenas de pessoas que se aglomeraram na casa de sua tia para o velório.
Mas quando o caixão chegou, precedido por uma motociata, desabou em um choro dilacerante.
O caixão, coberto por uma bandeira da Venezuela e um estandarte de um grupo de motociclistas, está disposto na sala.
Numa fila improvisada, as pessoas se sucedem para ver seu rosto uma última vez, entre elas sua avó de 90 anos e Cirilo Fernández, que, em meio à comoção, considera que a morte de seu sobrinho foi "violenta" e responsabilidade do Estado.
Rompe seu silêncio autoimposto. "Não é só ele, há vários", afirma, em alusão a outros casos de pessoas mortas durante suas detenções.
De acordo com organizações de defesa dos direitos humanos, desde 2014 já morreram 18 presos políticos sob custódia do Estado venezuelano.
M.White--AT