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Transição, inclusão e segurança: os desafios do novo líder sírio
A queda de Bashar al Assad pôs fim a meio século de ditadura e a uma guerra devastadora, mas atualmente um só homem concentra todos os poderes na Síria, o presidente interino Ahmed al Sharaa, à frente de uma frágil transição cheia de desafios.
Sharaa foi designado presidente interino na última quarta-feira (29) para um período de transição indeterminado, em uma reunião a portas fechadas do Comando Geral de Operações Militares, a coalizão que tomou o poder em dezembro.
Com a sua nomeação, os sírios "dependem agora totalmente" das novas autoridades, destacou o advogado Ezzedin al Rayeq, que se pergunta como muitos outros: "Levarão realmente o país a uma democracia com direitos humanos?".
Sharaa liderava o movimento islamista Hayat Tahrir al Sham (HTS), que desde o seu reduto em Idlib, no norte do país, liderou a ofensiva rebelde que depôs Assad em 8 de dezembro.
O grupo e outras facções foram dissolvidos e seus combatentes deverão se integrar a uma futura força nacional.
Em sua primeira mensagem como presidente, na quinta-feira, Sharaa prometeu "formar um amplo governo de transição representativo da diversidade síria" que conduza "eleições livres e transparentes".
Rayeq admite que teria preferido que o presidente interino tivesse sido nomeado "de uma maneira mais democrática e participativa". Porém, "sendo realistas e pragmáticos, [nomear Al Sharaa] talvez fosse o único caminho para frente", disse.
As autoridades se comprometeram a realizar um diálogo nacional com todo o país, mas não definiram uma data.
- Consolidação -
As autoridades suspenderam a Constituição e dissolveram o Parlamento, enquanto o Exército e os serviços de segurança colapsaram após décadas sob o comando do partido Baaz, do clã Assad.
Ziad Majed, cientista político franco-libanês, acredita que a designação de Sharaa "poderia ter sido feita de forma diferente". "É como se os chefes" dos grupos armados tivessem escolhido Sharaa, apontou.
Sharaa explicou que sua nomeação ocorreu após "intensas consultas" com assessores legais, e prometeu uma "declaração constitucional" e um "conselho legislativo limitado".
Segundo Majed, a maioria dos grupos armados "reconhece a liderança de Sharaa", embora persistam tensões com combatentes no sul e no nordeste da Síria.
Grupos armados na província de Sueida, no sul, alguns da minoria drusa, permanecem cautelosos com as novas autoridades.
No nordeste, as Forças Democráticas Sírias (FDS), na administração semiautônoma curda, têm travado confrontos contra as forças pró-turcas. Os novos governantes sírios, também apoiados por Ancara, instaram as FDS a entregar suas armas e rejeitar um governo autônomo curdo.
Majed disse esperar que "Sharaa e aqueles próximos a ele" busquem "consolidar o controle territorial e o controle sobre os grupos armados", mas que também é prioritário restabelecer a economia atingida pela guerra.
Também instou a evitar "atos de vingança", especialmente contra membros da comunidade alauíta, de onde vêm os Assad.
- “Muito cedo” -
O advogado Rayeq diz apoiar a organização dos grupos armados sírios, ideologicamente diversos, "sob uma única autoridade". Se isso tiver sucesso, "deixaremos a guerra civil para trás", afirmou.
A queda de Bashar al Assad finalmente permitiu aos sírios falar sem medo após anos de repressão, mas ainda há preocupações.
Escritores, artistas e acadêmicos sírios assinaram uma petição pela "restauração das liberdades públicas fundamentais, especialmente as liberdades de reunião, protesto, expressão e culto".
Inclui também o direito de formar partidos políticos independentes e defende que o Estado não deve "interferir nos costumes do povo", diante do medo de imposição da lei islâmica.
Majd, um vendedor de peças de veículos usadas, de 35 anos, considerou os últimos anúncios das autoridades "positivos", mas expressou preocupação com a economia.
"Os preços caíram, mas as pessoas não têm dinheiro", disse ele sem revelar seu sobrenome, lembrando que milhares de funcionários foram suspensos de seus cargos após a queda de Assad.
Por isso, "é muito cedo para julgar os novos líderes", afirmou ele, que prefere ver "os resultados na prática".
A.Anderson--AT